07/12/22

« Mirror, mirror on the wall...

 ...Who's the grimmest of them all? »


M - 1931


Joker - 2019


Apesar da semelhança entre as imagens (e entre a doença mental das personagens em questão---coincidências?), são mais as diferenças que separam estes dois "filmes-sociais" do que as similaridades que os aproximam. 

A sociedade/civilização no filme de Lang está fundada na ordem, na harmonia entre as partes, e num sistema de "equilíbrios compensações" que é em último caso eficaz (mesmo que bastante ineficiente).

O filme de Todd Phillips por seu lado aposta as suas fichas na incapacidade institucional em curar a corrupção e as feridas do "sistema", e na emergência do caos urbano e do motim como resultados inevitáveis (desejáveis?) da decadência social.

O filme de Lang denuncia o "vigilantismo" e a tomada da justiça pelas mãos populares, enquanto o filme de Phillips parece abraçar a ideia.

Ainda assim, teria sido interessante perceber se Lang tornaria a filmar "o mesmo filme", e manteria a mesma "fé" nas estruturas sociais, uns anos mais tarde, no contexto em que Hitler e o Partido Nazi haviam já tomado as rédeas do poder.

05/10/22

Da natureza do Homem

    « He spoke of his campaigns in the deserts of Mexico and he told them of horses killed under him and he said that the souls of horses mirror the souls of men more closely than men suppose and that horses also love war. Men say they only learn this but he said that no creature can learn that which his heart has no shape to hold. His own father said that no man who has not gone to war horseback can ever truly understand the horse and he said that he supposed he wished that this were not so but that it was so.

Lastly he said that he had seen the souls of horses and that it was a terrible thing to see. He said that it could be seen under certain circumstances attending the death of a horse because the horse shares a common soul and its separate life only forms it out of all horses and makes it mortal. He said that if a person understood the soul of the horse then he would understand all horses that ever were.

They sat smoking, watching the deepest embers of the fire where the red coals cracked and broke.

Y de los hombres? said John Grady.

The old man shaped his mouth how to answer. Finally he said that among men there was no such communion as among horses and the notion that men can be understood at all was probably an illusion. Rawlins asked him in his bad Spanish if there was a heaven for horses but he shook his head and said that a horse had no need of heaven. »


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    « When I was in school I studied biology. I learned that in making their experiments scientists will take some group - bacteria, mice, people - and subject that group to certain conditions. They compare the results with a second group which has not been disturbed. This second group is called the control group. It is the control group which enables the scientist gauge the effect of his experiment. To judge the significance of what has occurred. In history there are no control groups. There is no one to tell us what might have been. We weep over the might have been, but there is no might have been. There never was. It is supposed to be true that those who do not know history are condemned to repeat it. I don't believe knowing can save us. What is constant in history is greed and foolishness and a love of blood and this is a thing that even God - who knows all that can be known - seems powerless to change. »


in  All the Pretty Horses - Cormac McCarthy

29/09/20

The Stuff Dreams are Made Of

 

The Maltese Falcon - Relíquia Macabra - 1941
 
Laura - 1944
 

26/02/20

Os homens não choram! (... acerca de "1917" e de "Paths of Glory" - parte II)

Homem que é homem não chora, e filme que é filme não perde tempo com pieguices sentimentalistas.

Mas em Paths of Glory é precisamente isso que sucede no final. A esta distância, olhando para a obra de Kubrick e considerando o quão uniformemente fria e calculista se apresenta, é irónico observar uma manifestação tão aberta e humanista, sem máscaras ou artifícios estilísticos pelo meio. E a intensidade com que nos é mostrada!

Depois de nos levar pela mão num instrutivo passeio por aquilo que de mais abjecto e repugnante há no comportamento humano, depois de nos assegurar, para lá de qualquer dúvida, que por mais que nos esforcemos, por mais sólidos e racionais que sejam os argumentos utilizados, por mais explícitos que sejam os exemplos disponíveis, mesmo à nossa frente, depois de nos explicar por A mais B que não conseguiremos nunca contrariar o egoísmo, a maldade e a tirania institucionalizados (uma marca no seu cinema), Kubrick afasta ligeiramente as nuvens negras para o lado, ensaia uma inusitada inflexão na trajectória pessimista do filme, e permite que um raio de sol nos aqueça por instantes a alma. Há esperança para a humanidade, e não é assim tão ténue quanto isso - essa também é uma das mensagens de Paths of Glory. Somos capazes do pior, mas também do melhor, mesmo em condições extremas, mesmo quando enterrados até ao pescoço num imundo lamaçal.

A determinada altura em 1917, entre duas sequências mais tensas de aflição para o protagonista, sucede um breve período de acalmia. O soldado, à beira de sucumbir de exaustão, deambula pelo mato e ouve à distância alguém a cantar. Um regimento amigo de tropas reúne-se no chão à volta de um intérprete, antes de partir para uma ofensiva. O soldado deixa-se cair junto de uma árvore e a câmara liberta-se por momentos da sua presença, dando uma curta volta por entre grupo. Tão curto é o "giro", e tanta é a pressa do realizador para voltar para junto do protagonista, que mal reparamos nas expressões dos poucos soldados que aparecem no enquadramento. Mendes revela-se menos interessado na expressão humana e mais em tornar a pegar na intensidade do fio narrativo, para não deixar esfriar a componente imediatista de tensão. Como em relação a tantas outras vertentes no filme, o tema, a canção, a voz do intérprete e o seu impacto junto das tropas quedam-se para um segundo plano praticamente irrelevante e acabam por não ser explorados o suficiente para formar massa crítica emocional.

Por se tratar de uma canção que reune a atenção das tropas à sua volta, esta sequência faz-nos recordar esses 5 minutos finais de luz em Paths of Glory. Não quero entrar em descrições desnecessárias (até porque a expressão de Kirk Douglas, antes e depois da sequência, nos conta tudo o que precisamos de saber), mas vou deixar o mais importante: as imagens dos rostos dos soldados no momento em que, ao som da voz da jovem alemã (um "troféu de guerra" à espera de ser sexualmente explorado), o elemento comum da solidariedade e compreensão se sobrepõe à brutalização imposta pela guerra. O momento em que as lágrimas se tornam protagonistas.






















25/02/20

O "último refúgio de um cobarde" (... acerca de "1917" e "Paths of Glory" - parte I)

Talvez seja injusto entrar em comparações pormenorizadas entre o mais recente filme de Sam Mendes, o aclamado 1917, e algumas outras obras de guerra, e sobre a guerra, com raízes já bem firmes na história do Cinema, mas a verdade é que a ambição evidente de Mendes, por um lado, e as matrizes que pretende homenagear, por outro, tornam quase à partida essas comparações inevitáveis. 

Um dos modelos mais facilmente reconhecíveis em 1917 é o filme Paths of Glory - Horizontes de Glória, de Stanley Kubrick, realizado em 1957 - reconhecível logo a partir do modo como a câmara é "encaixada" dentro das trincheiras e se move e segue as personagens de um lado para o outro. São aliás reconhecidos o pioneirismo obstinado na abordagem por parte de Kubrick em Paths of Glory, e o espantoso trabalho de Mendes e do seu "cinematógrafo" de serviço, Roger Deakins, na construção de um fluxo narrativo contínuo e ininterrupto em 1917 - o seu maior trunfo, por sinal.

Só que enquanto 1917 é um gigante com pés de barro, imersivo, realista e portentoso no capítulo técnico mas sofrível na substância (terá alguma?), o filme de Kubrick é uma imensa parábola social, amargo e irónico, carregado de situações absurdas e diálogos mordazes, que denuncia a cobardia, a estupidez humana e a corrupção moral que se encavalitam e escudam nas fontes de poder, em concreto nas hierarquias da patente militar.

Um desses diálogos - um que vale a pena recordar vezes sem conta porque está sempre actual - versa assim: