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08/02/14

Oito e meio noves fora nada


Há uma pergunta que fica teimosamente a pairar no ar quando terminamos de ver Nine - Nove (Rob Marshall - 2009): como foi que isto sucedeu? Como foi possível que um filme produzido por uma equipa competente e experiente, na posse de avultados meios financeiros, conduzido por nomes sonantes nas vertentes técnica e artística, com um elenco de primeira água a transbordar de estrelas consagradas - que, além disso, não poderiam ter sido escolhidas de forma mais apropriada para cada papel -, e que homenageia energicamente, com algum "barulho" e aparato pelo meio, essa obra maior de Federico Fellini, (1963), seguindo-lhe as passadas narrativas e recriando algumas sequências famosas, tivesse falhado tão redondamente, tão frustrantemente, nos seus propósitos?

Mais, não podemos sequer afirmar que se trata de um mau filme, porque a tal competência e aprumo artísticos, levados ao extremo do profissionalismo pelos nomes envolvidos, se notam em cada fotograma, em cada coreografia encenada, e cada sopro interpretativo. Mas talvez que as suas forças intrínsecas sejam também as causas maiores do seu fracasso - ou ruína - a começar na ideia de homenagear 8½, uma obra que reconhecidamente não estará ao alcance de qualquer tentativa de abordagem - nem essa perspectiva de sucesso tem nada que ver com a largueza dos meios de produção. Recordemos o caso de Stardust Memories - Recordações (Woody Allen - 1980), por exemplo, que lidava com esta situação sobrepondo a persona Allen à persona Fellini, não deixando de aproveitar o território comum que há entre as duas, e que, à conta dos trejeitos idiossincráticos do autor norte-americano, e mais da sua identidade autoral distinta, "se safava" com a dita homage. Havia pois uma identidade suficientemente forte e autónoma que, sem cuspir no prato de onde comia, reclamava a si o protagonismo. Em Nine, os problemas começam por aí- é uma fita anónima, mesmo que artisticamente esforçada, sem a identidade necessária para lhe insuflar a alma, e consequentemente sem sustento para preencher as carcaças das personagens com algo que se assemelhe a vida.

Woody Allen parodia a espantosa sequência de abertura de em Stardust Memories


Curiosamente, refira-se, Nine serve-se de algumas ideias provindas de Stardust Memories para compor o ramalhete (a conversa entre o realizador e a plateia logo no início do filme, por exemplo, e o nudge aos "good early movies", são reminiscências da obra de Allen, e não da de Fellini). Será porventura esse o maior mérito de Nine, contudo - o de não pretender imitar ou refazer a obra que reverencia de forma demasiado próxima, limitando-se a aproveitar a estrutura e as personagens, mas à distância, com outro tipo de abordagem estética e artística, compreendendo que há um limite que não deve transpor (andam por lá os paparazzos, mas é um alívio não terem enfiado com Nicole Kidman dentro da fonte, a fingir-se de Anita Ekberg em La Dolce Vita). Entende-se o que Marshall pretendeu fazer estruturalmente: pegar nas sequências que no filme de Fellini nos surgem como oníricas (as da imaginação, dos sonhos, fantasias, e das recordações de Guido/Marcello Mastroianni) e substituí-las por momentos musicais "sonhados" (passados na imaginação de Daniel Day-Lewis), com coreografias vistosas, semi-eróticas, mais ou menos modernas - um pouco ao jeito do que sucedia em Chicago (Marshall - 2002). A ideia era meritória, mas não lhe serviu para tornar Nine num filme estimulante - pelo contrário, apesar do aparato e do nervo que exibe, o resultado é confrangedoramente estéril do ponto de vista da empatia pelas emoções humanas (não por culpa dos actores), e até algo aborrecido do ponto de vista narrativo, não se afastando por uma vez da linha do politicamente correcto e do previsível, e matando logo por aí o almejo de alcançar Fellini, ainda que de longe (ao caos imensamente sugestivo e criativo de um, sucede a ordem certinha e arrumadinha do outro, e também sucede que isso não é bom). É a simples curiosidade - e apenas essa - que nos prende ao ecrã:  para ver como tudo se vai frustrando, quebrando e desmoronando pelo caminho - o caminho para um cada vez mais distante.
 
Daniel Day-Lewis em Nine

É conhecido o contexto profissional e emocional que levou Fellini a realizar . Depois do estrondoso cume criativo que deu pelo nome de La Dolce Vita, circa 1960, o realizador encontrou-se, pela primeira vez na vida, face a um vazio de ideias, sem saber o que fazer a seguir. Junto da sua equipa habitual de argumentistas, escarrapachou uns traços vagos sobre um escritor, também ele em crise criativa, apanhado numa teia sentimentalista entre a esposa e a amante. O filme, segundo Fellini, devia ser encenado como uma "comédia". O projecto foi sendo sucessivamente adiado porque o realizador, ao mesmo tempo que sabia tratar-se de uma história profundamente autobiográfica,  não se identificava com a personagem principal - por ser um escritor. Para piorar o cenário, Mastroianni, o actor escolhido para o papel, havia recentemente sido utilizado por Michelangelo Antonioni em La Notte (1960), precisamente interpretando um escritor. Foi só quando Fellini se decidiu a mudar a profissão do seu futuro alter-ego no ecrã - de escritor para realizador - dois anos mais tarde, que o projecto arrancou finalmente com a produção. O resto também é conhecido - a essência do filme é uma reprodução metafórica (até certo ponto), pontuada por momentos surreais e oníricos que exprimem a culpa, o isolamento e a inquietação, da crise criativa e das expectativas por cumprir por que Fellini estava a passar ("Eu não tenho nada para dizer, mas quero dizê-lo à mesma!"). O outro eixo temático mestre, que nesse se intercepta, aborda a relação antagónica entre a Verdade e a Felicidade, tendo pelo meio a "problemática" da Sinceridade e a hipocrisia dos costumes sociais, e fazendo das relações amorosas e do "ideal feminino" o nervo ferido à beira do ponto de ruptura - ou já para lá dele. Filmado num preto-e-branco fortemente contrastado, o filme é uma delirante e insana viagem ao confins de Honestidade, em que deixam de importar as barreiras em relação à mensagem que se pretende transmitir, e que consegue, pela via artística, desenvencilhar o nó górdio paradoxal contido na sua premissa: "a felicidade é poder dizer a verdade sem magoar ninguém", lança Guido para o ar, em frente a uma plateia de mulheres, todas as mulheres por quem se terá sentido atraído ao longo da vida (a música? "A Cavalgada das Valquírias", muito antes de Coppola a ter enfeitado com helicópteros). Terá Fellini conseguido não magoar ninguém ao expor-se desta forma no celuloide?

Marcello Mastroianni em

Ora, o filme de Marshall, seguindo o estreito plano da boa intenção e da correcção estética, sem novidade nem identidade, em vez de somar, subtrai, deixando pelo caminho o desvairo alucinado e claustrofóbico que Guido mantinha oculto dentro de si na obra de Fellini. Se a personagem que Day-Lewis interpreta se equivale à de Mastroianni - pelo menos de forma tentada -, o acondicionamento artístico de Nine dita que não haja desta vez uma saída possível para a imensa habilidade e versatilidade do actor - o abismo não olha de volta para a personagem de Nine como olhava para a de - com uma voragem caricatural insaciável, por vezes grotesca, por vezes amarga, por vezes nostálgica pela recordação, por vezes ensimesmada, divertida com as tropelias da sua imaginação (veja-se a sequência do enforcamento do crítico de cinema) - algo que em Nine não passa de uma miragem distante - uma vaga memória que não encontra eco na matriz onde se inspira.

30/01/14

Contos de Nova Iorque


Peguem no universo temático autocêntrico de Woody Allen, retirem-lhe a neurose da dúvida existêncialista, as questões de ruptura com a "identidade judaica", a constância do sketch humorístico; transponham agora aquilo que resta (e que ainda é um substancial conjunto de características de autor) para o corpo de uma irrequieta jovem nova-iorquina na casa dos quase-trinta, uma jovem à procura de afirmação e de independência num mundo que não a compreende, platonicamente apaixonada por alguém que nunca poderá ter, e a braços com o dilema da escolha entre a profissão de que verdadeiramente gosta e aquela que se encontra disponível. Frances Ha (Noah Baumbach - 2012) não é só isto - não é só esta receita requentada de ingredientes pré-cozinhados - mas muito da sua ambiência faz de facto recordar a paixão agridoce e ternurenta que Allen destila por Nova Iorque (em fitas como Manhattan e Annie Hall, por exemplo, em que as emoções são indissociáveis daquela geografia espacial tão característica), faz recordar os estados de espírito, ora alegres, ora melancólicos, entre os quais oscilam as suas personagens (com a fotografia preto-e-branco a servir de âncora), e a ligação umbilical inconstante entre a amálgama daquilo que vai dentro da alma e o cenário exterior citadino em que essa massa se projecta e afirma.

Frances Ha  vive muito - e vive muito intensamente - da prestação de Greta Gerwig, a compor uma figura intelectual-emocional que parece não caber no invólucro físico limitador que a vida lhe proporcionou. Em paralelo, é gratificante encontrar uma galeria de personagens secundárias realista, criaturas nas quais vislumbramos uma vida e uma vivência que vão muito para além do protagonismo limitado e do curto espaço de tempo que passam no ecrã. Podiam ser nossos vizinhos, pelo pouco que deles conhecemos, pelo tanto que imaginamos saber acerca das vidas por detrás dos rostos e das portas, e pela teia irregular de referências e relações que constroem, sem o saber, à nossa volta. A fita é um elegante passeio pela linha sinusoidal do tempo, que nos embala artisticamente, com saber e bom gosto, entre o sorriso e a lágrima, numa conjugação indistinta entre os bons e os maus momentos da vida; uma fita apaixonada por algo que poderá nunca realmente alcançar - é um sonho de juventude à beira de se tornar adulto, e de ter de se reinventar no processo, perante as novas circunstâncias - mas que encara o desafio sabiamente, com carácter. Uma das boas surpresas cinéfilas de 2012/2013.


 




























26/11/13

Woody Allen Clips #1

Stardust Memories - Recordações (1980), surgido já depois dos sucessos de Annie Hall (1977) e Manhattan (1979), é uma das pérolas esquecidas na carreira de Woody Allen, uma homenagem delirante a Federico Fellini e ao seu (1963), mas que não se afasta um milímetro da órbita que Allen inventou para a sua personagem cinematográfica. 

Dito de outro modo, isto não é Allen a fazer de Fellini, é Allen a fazer de Allen a fazer de Fellini (o que faz toda a diferença), com o realizador-actor-tornado-personagem a tomar o papel que nesse outro filme coube a Marcello Mastroianni... que fazia de Fellini. Confuso? Talvez nem tanto, porque o propósito de Allen em Recordações é, segundo o próprio, somente fazer rir (não o levemos a sério...). É como se se visse subitamente transposto, a preto-e-branco e tudo, para o território de intervenção de Allen, mantendo a aura surrealista e caricatural de Fellini, e sem esquecer o interminável diálogo-debate interior sobre o sentido das coisas que caracteriza o cinema dos dois autores.