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27/01/14

The Wolf of Wall Street - O Lobo de Wall Street - Martin Scorsese - 2013



Jordan Belfort: There's no nobility in poverty. I've been a poor man, and I've been a rich man. And I choose rich every fucking time.

Não sendo o filme mais violento de Scorsese, The Wolf of Wall Street é de longe o mais agressivo e feroz. Recupera um pouco a linha daquilo que terminara em Goodfellas - Tudo Bons Rapazes (1990) e Casino (1995) - até pelo arco narrativo de "ascenção e queda" contado na primeira pessoa pelo protagonista, seguindo a vertigem sedutora do dinheiro -, mas transpõe o centro gravítico da canalhice para o mundo implacável da bolsa de valores norte-americana (território de "touros" e de "ursos", onde, ou se come ou se é comido, literalmente) E, à imagem do filme, o mesmo sucede com a personagem de DiCaprio, toda ela excesso, exuberância e depravação, alimentados a drogas e sexo promíscuo numa constância que só termina com os créditos finais. Depois de uma primeira meia-hora que serve para ambientar o espectador e ensinar-lhe as "regras do jogo" (com um excelente momento de Matthew McConaughey pelo meio, e que o trailer apenas deixa antever), o excesso faz transbordar o ecrã e Scorsese esfrega-nos na cara a realidade bruta daquilo que o dinheiro roubado a milhares de americanos de classe média - e mais tarde de classe alta - possibilitou a um punhado de executivos corruptos de colarinho branco, que sabiam manipular as regras do jogo e operar à margem da lei sem serem apanhados pelas agências reguladoras. O filme é, ao mesmo tempo, a biografia de um desses "executivos"; uma vigem alucinante por um tempo e um sistema aparentemente legalizado que não só permitiu (permite?) a corrupção, mas que quase a encorajava, servindo-nos um curso de iniciação rápido de más-práticas e truques sujos para sacar dinheiro ao próximo; e o retrato de uma América decadente e moralmente ferida, a América do sonho-americano virada do avesso, em que todas as crenças e valores pelas quais os "average-joe" (já agora - também todos nós, os espectadores) se orientam servem de porta-do-cavalo para o roubo consentido em larga escala e para a subversão de tudo aquilo que a bandeira representa (ao longo do filme são vários os planos desse símbolo, orgulhosamente limpa e esvoaçante, mas sempre trocista, a cuspir-nos em cima as cores da mentira). 


Desconheço se no futuro virá a será recordado como mais uma "obra-prima" de Scorsese (não me espantaria que venha a suceder), mas o filme transborda de momentos e diálogos memoráveis (alguns, completos delírios "over-the-top") que, creio, se tornarão eles próprios símbolos cinéfilos e culturais que nos vão acompanhar por muito tempo (tal como a frase "Greed is good" lançada por Gordon Gekko/Michael Douglas em Wall Street (Oliver Stone - 1987), e que aqui ganha contornos ainda mais arrepiantes). Como comédia-negra, o seu "punch" e a sua amoralidade são notáveis - não só nos fazem rir à gargalhada da nossa própria desgraça social, mas fazem-nos vibrar com seus paladinos, tornam-os heróis e exemplos a seguir, tornam os fins justificações desejáveis para os meios, e pelo meio derrubam, através de uma dimensão meramente material, todo o castelo de cartas das boas intenções construído ao longo de décadas por um sistema cultural e educativo institucional. A serenidade ultrajante do plano final (em que uma multidão anónima contempla, com reverência, Jordan Belfort, aguardando os seus ensinamentos) é uma última facada nos rins do espectador. Greed is definitely good!


Enquanto ia assistindo ao filme, ia-me recordando da forma como Peter Travers inicia a sua crítica na revista Rolling Stone: "Pow. Pow. Pow. Pow. Pow. That's how Martin Scorsese's The Wolf of Wall Street comes at you." Pancada, atrás de pancada, atrás de pancada, mas não em direcção ao ponto de dormência, muito pelo contrário, a viagem lasciva e obscena proposta por Scorsese ao mundo infeccioso da grande finança funciona como uma ampliação para as glandes sensoriais, e apenas queremos mais, e mais, e mais, à medida que acompanhamos, numa dimensão propositada e traiçoeiramente conciliadora em termos de identificação e empatia, a personagem monstruosa interpretada por Leonardo DiCaprio (que bem que o Oscar lhe ficava). The Wolf of Wall Street é o tipo de filme capaz apanhar desprevenidos até os conhecedores da obra, das temáticas e das personagens mais caras ao realizador. Não trazendo nada de particularmente novo ao seu campo trabalho, não deixa de ser um passo adiante na exploração formal do conteúdo cinematográfico, mais aberto, mais provocador, e sem olhar a vítimas entre a plateia.

Jordan Belfort: Was all this legal? Absolutely not!

24/12/13

A Invenção dos Sonhos

A invenção dos sonhos é a invenção do cinema, e em Hugo - A Invenção de Hugo Cabret (2011) os seus artífices são Georges Méliès e Martin Scorsese, um dos pioneiros maiores da 7ª Arte nos anos que sucederam a sua descoberta, no final do século XIX, e um dos grandes realizadores americanos da actualidade, respectivamente. O livro (estupendo), história e ilustrações, foi publicado por Brian Selznick em 2007 e, para além de todos os elogios que justamente mereceu vindos dos quatro cantos do mundo, acabou por determinar o "encontro" entre esses dois titãs do cinema. Separados no espaço e no tempo, Méliès e Scorsese partilham de um mesmo fascínio pelo artifício técnico, pelas possibilidade infinitas na criação de ilusões e fantasias, e sobretudo pela capacidade que o cinema tem em proporcionar aos espectadores a magia dos "sonhos acordados", como às tantas a personagem de Hugo (Asa Butterfield) refere no filme.

Hugo é uma fábula moderna que evoca a memória e a nostalgia dos primórdios do cinema - situado na Paris cosmopolita dos anos 30 (a estação de comboios é o seu microcosmo representativo), é uma fita carregada de fantasia e de fantasias, em que Méliès (Ben Kinglsey) é carinhosamente apelidado de "Papá Georges", e em que o deslumbramento da descoberta da magia nos é transmitido através do olhar de uma criança. A criança fascinada somos todos nós, mas é também Scorsese, humilde, a prestar homenagem a um dos seus mentores espirituais do passado (uma espécie de Jules Verne do celulóide), reproduzindo história e técnica, narrando situações e emoções, e preenchendo as lacunas com a sua persona cinematográfica muito peculiar. A estrutura do próprio filme parece gravitar em torno do aproveitamento físico e visual das formas e feitios, da engenharia técnica que agrega "as partes", com gigantescas rodas dentadas, engrenagens e maquinaria de precisão mecânica a dominarem e a preencherem o espaço de ecrã, e a servirem de metrónomos escondidos ao funcionamento da sociedade (chegam-nos por vezes reminiscências da Metropolis de Lang). Dir-se-ia que a ciatividade fantasiosa e o gosto pela ilusão de Méliès encontram na geometria tecnicista e hiper-dinâmica scorsesiana o formato de expressão ideal para serem recordados através do cinema que se produz hoje em dia. Nesta vertente, é importante destacar a significância dos efeitos especiais e do CGI - desta feita pela positiva, e de uma forma muito pragmática. Se por um lado o seu artificialismo colorido e brilhante, e a sua falta de "peso e volume" são notórios, estes aspectos jogam a favor do tom de fábula da narrativa - o faz-de-conta é um factor conhecido e partilhado pelo público desde o início, numa celebração una entre o lado de lá e o lado de cá da tela - e nem poderia ser de outra forma, pelo menos circunscrevendo a situação ao filme em causa. Há um travelling de câmara absolutamente espantoso a abrir o filme, que começa num grande plano sobre a cidade de Paris, com a câmara depois a deslizar suavemente em "zoom picado", numa vertigem delirante que termina estática em frente aos olhos de Hugo, oculto atrás do número quatro de um dos relógios da estação de comboios onde vive. O resto é um festival incessante de luz (muito a propósito de cinema) e cor, na maior parte das vezes num sépia tintado onde despontam alguns realces parcelares mais naturalistas.

Fica um aviso/sugestão: tal com na maioria dos filmes de Martin Scorsese, se não mesmo em todos, uma só visualização não chega para absorver e apreciar devidamente os "truques" do mestre. Os "insistentes" que prestarem a devida atenção à montagem e edição de Hugo sairão largamente recompensados...



















10/12/13

Ainda sobre Shutter Island...

... para referenciar a adequação da banda sonora, escolhida por Robbie Robertson, antigo guitarrista dos The Band, e amigo e colaborador de Scorsese desde que este filmou o concerto de despedida da banda em The Last Waltz. É formada por um alinhamento de temas dispersos, reunindo temas clássicos e modernos não originais (não foram compostos para o filme), e que no seu conjunto criam a ambiência onírica certa para acondicionar os dilacerados estados de alma de Teddy Daniels (DiCaprio).

A primeira sugestão que deixo, da autoria do compositor poláco Krzysztof Penderecki, será facilmente reconhecida por quem tiver visto o filme. É a peça responsável pelo compasso sinistro e sombrio que envolve Teddy no momento em que está prestes a iniciar a investigação (e que se faz ouvir também mais tarde, noutros momentos ao longo do filme). De início começamos por imaginar que seja a sirene do ferry-boat a sinalizar a aproximação a terra, mas o som prolonga-se à medida que penetramos no mistério da ilha e no pesadelo demente do seu conhecimento.


Outra sugestão é o tema escolhido para acompanhar os créditos finais, This Bitter Earth, segundo uma interpretação de Dinah Washington que data de 1960, aqui sobreposta ao tema On the Nature of Daylight, de Max Richter, publicado em 2004. Após a decisão tomada conscientemente pela personagem de DiCaprio ao fechar do pano, seria difícil acertar mais perto do centro do alvo no que respeita a um invólucro emocional trágico e sereno apropriado à ocasião, tanto no plano melódico e instrumental, como na letra.


This bitter earth
Well, what fruit it bears
What good is love
Mmmm that no one shares
And if my life is like the dust
Oooh that hides the glow of a rose
What good am I
Heaven only knows
Lord, this bitter earth
Yes, can be so cold
Today youre young
Too soon, youre old
But while a voice within me cries
Im sure someone may answer my call
And this bitter earth
Ooooo may not
Oh be so bitter after all

Shutter Island - Martin Scorsese - 2010


Warden: If I was to send my teeth into your eye right now, would you be able to stop me before I blinded you? 

Qualquer pessoa já terá passado por uma experiência semelhante: chegar ao final de um filme em sobrecarga de sistema, com as ideias em curto-circuito, incapaz de assimilar, processar ou ordenar devidamente os dados que lhe foram transmitidos ao longo das duas horas anteriores. Aquilo que acabou de presenciar excedeu a sua capacidade de aceitação. E quanto à de entendimento, essa anda freneticamente à procura de um desenlace para um aglomerado de nós lógicos que se sobrepõem uns aos outros.


Shutter Island é um desses filmes, um thriller psicológico inquietante e perturbador desde o primeiro segundo (o fabuloso plano "em branco", de onde virá a irromper um ferry), glacial e meticuloso na construção da intriga, e capaz de subverter todo o sentido dos "factos" nos derradeiros instantes de película. Mal termina, não conseguimos largar da sua presença; os mecanismos que regem o nosso raciocínio teimam em passar em revista os acontecimentos narrativos, incessantemente, de forma obsessiva quanto à minúcia, tentando fazer encaixar umas nas outras as peças de um puzzle que no último instante mudou de desenho. Ficamos com a sensação de que a nossa suspension of disbelief ficou a balançar na corda bamba, num delicado exercício de equilíbrio.


1954. Teddy Daniels (Leonardo DiCaprio) e Chuck Aule (Mark Ruffalo) são dois agentes federais destacados para investigar o misterioso desaparecimento de uma doente mental de uma instituição muito particular. O Hospital Ashecliffe, situado na ilha Shutter (um rochedo inóspito que nada mais alberga para alem desse hospital), acolhe simultâneamente os casos psiquiátricos mais complicados e os que mais perigo representem para a sociedade. Com muros altos, vedações electrificadas, e um destacamento residente de guardas fortemente armados, o local é um misto de colónia prisional de alta segurança e centro especializado de tratamento de doentes mentais. Um local de aparência ameaçadora que atira a nossa imaginação para épocas medievais. Sabemos que aquilo que se passa lá dentro, seja o que for, não transparece nem pode transparecer cá para fora, nunca, sob pena de condenar a instituição aos olhos da opinião pública.


Colocados ao corrente da situação pelo director da instituição (Ben Kingsley) - a doente parece ter-se evaporado no ar: escapou de um quarto trancado por fora e com barras nas janelas, e passou por uma dúzia de membros do staff sem que ninguém desse por nada -, os agentes cedo percebem que estão por sua conta e risco, e que há interesses terceiros a tentar abafar os contornos do caso. É-lhes sucessivamente negada a possibilidade de consultarem os arquivos médicos dos pacientes, a hipótese de falarem com o médico responsável pela doente desaparecida, e a liberdade para se deslocarem à vontade pelos terrenos da instituição. O hospital é constituído por três alas separadas: a ala dos homens, a das mulheres, e a dos "casos mais violentos" - uma fortificação medieval de pertinentes semelhanças com a biblioteca-labirinto do romance de Umberto Eco, O Nome da Rosa, um local de acesso proibido, que reúne “toda a sabedoria”, mas também um abismo de onde não se torna a sair depois de entrar…

 

Shutter Island é um filme que demora relativamente pouco tempo a informar-nos, sem quaisquer pretensões de modéstia, de que vamos ser descaradamente manipulados, e de que a nossa percepção da realidade está prestes a ficar tão distorcida quanto a mente de Teddy Daniels. A partir do primeiro quarto de hora de filme, as coisas deixam gradualmente de fazer sentido - ou melhor, há sempre pormenores, numa vincada constância incomodativa, que não encaixam no panorama circundante: personagens que se comportam de forma estranha, acontecimentos que parecem demasiado forçados, atitudes que contrariam a lógica da normalidade. Tal como na literatura existe a opção de narração na primeira pessoa, neste filme a câmara não larga em momento algum a personagem de DiCaprio: o ponto de vista do espectador está assim manipulado-limitado ao ponto de vista da personagem. Ora, é boa altura para revelar que o detective Teddy Daniels é uma criatura à beira de um esgotamento, um ser física e psicologicamente afectado, atormentado por recordações dilacerantes da guerra (referentes à libertação de um campo de concentração na Alemanha nazi) e constantemente assaltado por violentas e intrigantes visões do seu passado familiar. Estes pormenores condicionam irrevogavelmente a sua conduta profissional (ou antes: determinam-na) e ajudam-nos a entender, até ao limite que o argumento permite, o carácter explosivo e irreverente que caracteriza a personagem. É nesta investigação que lhe foi confiada (e para a qual, aliás, pretendeu ser destacado a partir do primeiro instante) que parece encontrar as forças que ainda o sustentam de pé. Não é só o mistério do desaparecimento de uma doente que está ali para desvendar: Teddy procura obsessivamente um criminoso de nome Laeddis, que julga ter sido responsável pela morte da sua mulher (Michelle Williams) e que crê estar aprisionado em Ashecliffe.


Seguindo à risca as boas práticas do manual de instruções do film noir, todo o passado que desconhecemos acerca de Teddy (revelado através de caleidoscópios oníricos) vai-se lentamente intercalando nos factos da investigação em curso, até um ponto em que já não são separáveis. As várias "camadas" e linhas narrativas que o filme vai seguindo numa espécie de mosaico disconexo, esses vários momentos espaciais e temporais que misturam realidade e ilusão, progridem numa convergência crescente até se unirem no desenlace final. Há detalhes específicos que se repetem ao longo do filme e que abrem as portas entre os compartimentos que a mente de Teddy parece ter decidido separar: a grafonola que toca música clássica na caserna do oficial (a mesma música que toca na sala de estar do director do hospital e a mesma grafonola que toca na sua casa de campo, no dia em que…), os papeis de arquivo que esvoaçam pelo ar (tal como o guia de registo nº 67 na sequência da falésia), a superfície ondulante das águas do lago (o lago onde a doente desaparecida terá afogado os seus três filhos). É premonitória a sequência em que Teddy vai riscando fósforo atrás de fósforo, para iluminar o caminho, à medida que se vai aproximando do prisioneiro que lhe vai apontar novas direcções para a verdade - são pequenos fogachos, pequenas revelações que vão surgindo, para logo serem engolidos novamente pela implacável escuridão. Uma imagem que está inclusivamente representada no poster do filme.


O desenlace é previsível? Talvez seja. Não nego que não me tenha ocorrido, assim de passagem, enquanto estava a ver o filme. O importante, contudo, não é saber a “solução” – é antes observar o domínio absoluto com que Scorsese conjuga as várias vertentes e nos transporta nessa viagem vertiginosa até ao momento final, um passeio que definitivamente não é para todos os estômagos;  por vezes tem o trato de um pesadelo doloroso e o gosto amargo a sangue e a cinza nos lábios. É um filme que nunca deixa de ser complexo e cerebral no modo como apresenta a(s) sua(s) intriga(s).

Bizarro e agressivo na transmissão dos acontecimentos (é uma experiência “pesada”, para todos os efeitos), o filme exibe um jogo de iluminação com fortes contrastes cromáticos, alternado abruptamente entre o muito claro e o muito escuro, às vezes fazendo-o até no mesmo plano de imagem. O conjunto de cores escolhidas para retratar a ilha é propositadamente limitado, de tonalidades baças e apagadas, em oposição ao mundo dos pesadelos de Teddy, que parecem explodir de coloração em determinados momentos. A reforçar o ambiente de pesadelo, temos uma banda sonora imponente (por vezes algo intrusiva - como que a ameaçar a segurança do espectador) que não ficaria mal num filme de terror, e que não pára de nos berrar aos ouvidos: “não sabes onde te estás a meter!”.


É sabido que Denis Lehane se terá inspirado na literatura das irmãs Bronte e no filme Invasion of the Body Snatchers - A Terra em Perigo (Don Siegel - 1956) para escrever o seu livro, mas há outros filmes que são quase impossíveis não associar a Shutter Island, na sua versão cinematográfica. Entre eles, Minority Report - Relatório Minoritário (Steven Spielberg - 2002), que certa forma representa o seu contraponto tecnológico. Não é aleatoriamente que estabeleço a comparação: as personagens centrais dos dois filmes, agentes da lei responsáveis pela investigação de crimes violentos, partilham de uma mesma realidade emocional em relação à família (o seu passado encerra uma perda grave da qual nunca conseguiram totalmente recuperar, e acerca da qual frequentemente fantasiam situações de conforto), e vão passar por processos semelhantes para resolverem os casos em que estão envolvidos – processos que envolvem a correcta interpretação das "pistas" que lhe são passadas. Em Minority Report, John Anderton (Tom Cruise) recebia as dicas para os seus casos através de imagens retiradas sonhos dos precogs e, em Shutter Island, Teddy recebe mensagens e avisos através visões que tem da sua mulher.


E se estas "coincidências" não são suficientemente sólidas para fecharem uma associação, que dizer da maneira como as imagens dos crimes nos lagos nos são mostradas nos dois filmes? Da manipulação específica a que são sujeitas no próprio argumento, para confundir o protagonista (e com ele o espectador), levando-o a seguir pistas falsas, e da forma como no final essas imagens são “sincronizadas” com a realidade, revelando a verdade? Um outro ponto de contacto: Max Von Sydow, a figura sombria e predatória que paira sobre os protagonistas dos filmes e que se mantém acima de toda a intriga manipuladora…

O contraponto é a tecnologia. Se em Minority Report toda a "manipulação da verdade-realidade" se fazia em função do uso da tecnologia, em Shutter Island a tecnologia é encarada à distância, quase como uma ameaça (há inclusivamente uma paciente que se refere, com repulsa, a essa coisa “moderna chamada televisão, que faz aparecer pessoa estranhas dentro da nossa casa”), ou como um reduto para resolver os casos de psiquiatria considerados perdidos (a lobotomia transversal). Spielberg filma o futuro, Scorsese filma o passado, mas em ambos uma obsessiva demanda pela verdade oculta.
Não se espere um filme de fácil degustação - é disforme e retorcida a matéria que o constitui. A esse respeito, Scorsese nunca fez concessões.


Laeddis: Which would be worse? To live as a monster, or die as a good man?

12/11/13

Alice Já Não Mora Aqui - Martin Scorsese - 1974


Na vasta filmografia de Martin Scorsese, vistas as coisas a esta distância, e considerando a sua natural atracção por situações de violência latente (que depois expõe de forma hiperbólica), é possível que um título como Alice Doesn't Live Here Anymore nos pareça estranho, encaixado cronologicamente entre os raivosos e brutais Mean Streets - Os Cavaleiros do Asfalto (1973) e Taxi Driver (1976). Nada ligaria um pequeno drama intimista e agridoce, apostado em mostrar o mundo através de uma perspectiva feminina, com uma dona de casa como personagem central, às temáticas caras ao realizador. Olhando mais de perto, percebemos o que interessou tanto a Scorsese a ponto de aceitar filmar um argumento que não procurou em primeiro lugar - antes lhe caiu ao colo, tendo sido proposto por Ellen Burstyn, a actriz que interpreta Alice, e depois de uma primeira consulta a Francis Ford Coppola (Coppola, tal como Scorsese, era na altura um movie-brat - um dos novos talentos emergentes na América como realizador).

Um dos pilares em que assenta a força do cinema de Scorsese - e para lá do virtuosismo técnico que todos lhe reconhecem - é (e sempre foi) a exploração de uma determinada vertente reprimida/obsessiva na personalidade dos seus personagens, nomeadamente quando estes se acham emocionalmente encurralados, são confrontados com distanciamentos em relação à norma social, ou com situações de sofrimento limite que o contexto envolvente propicia - casos de solidão, rejeição ou exclusão comunitária, por exemplo - momentos de inquietude que terminam invariavelmente em explosões de violência, que autor filma com inegável fascínio pela perversidade. Devemos tanto à inspiração de Robert de Niro quanto à imaginação de Scorsese algumas das mais trágicas e diabólicas figuras que surgiram no cinema na segunda metade do séc. XX, casos de Travis Bickle em Taxi Driver, Rupert Pupkin no negríssimo The King of Comedy, e a reprise de Max Cady em Cape Fear, só para citar alguns.



É evidente que não é bem neste lote que cabe a Alice de Ellen Burstyn, nem o filme tem por intenção mostrar uma descida ao inferno da paranóia psicológica, mas por outro lado a matéria-prima de que se alimenta é em tudo semelhante à das obras mencionadas - a da existência de um ser encarcerado, e o acompanhamento gradual do processo de libertação -, tem é outro contexto. Alice é alguém com uma força de personalidade e uma inteligência imensamente superiores àquilo que a situação social lhe permite manifestar - uma sonhadora remetida ao papel de dona de casa submissa, ignorada pelo marido, e com um filho menor que não sabe como cativar e que lhe dá cabo dos nervos minuto-sim minuto-não. É apenas uma questão de tempo, adivinhamos nós espectadores, até o extremo limite do suportável se achar encontrado e o vulcão resolver acordar - os sinais estão à vista. Só que o destino (ou a pena do argumentista) decide de outra forma: Alice perde o marido num acidente de viação e decide, a partir desse momento, recomeçar a vida do zero, arrumando os pertences, pegando no filho, e arriscando uma viagem inter-estados através da América, para retomar o velho sonho de infância de se tornar cantora. É esta viagem em busca de uma nova Alice que explica o título e a dualidade de significância que este encerra, indicando em simultâneo a viagem de carro propriamente dita (deixando a antiga casa para trás), e a alteração comportamental deliberada (ou intenção disso) que a vai tornar numa pessoa diferente.

Face às temáticas dominantes e ao tom soft em relação ao que é o habitual de Scorsese, compreende-se o que torna Alice Doesn't Live Here Anymore num dos filmes mais esquecidos e menos divulgados do autor, uma situação declaradamente injusta, visto que exibe argumentos suficientes para se tornar um objecto de estimação - apreciando-se o estilo de Scorsese,  vê-lo 40 anos volvidos torna-se num gratificante prazer cinéfilo - registem estas palavras! É natural que, de entre o conjunto de interpretações, a de Ellen Burstyn seja a mais fácil de elogiar (e merece-o - se o filme necessitasse que o carregassem às costas, ela, por si só, bastaria), mas não há que esquecer o acerto e a sobriedade do restante elenco, em particular de Alfred Lutter (o pequeno actor que na tela faz de filho de Alice). De notar ainda a curta mas saborosa presença de Jodie Foster, numa das primeiras incursões no cinema, dois anos antes de aparecer totalmente transfigurada em Taxi Driver, na comovente figura de prostituta-menina que é explorada por Sport (Harvey Keitel) nas ruas de Nova Iorque

Não percam pois o rasto de Alice. É possível que tenham uma grata surpresa.