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08/03/15

I Believe in Angels

Diz-se que hoje é um dia especial, e andam por aí indivíduos de fato e gravata a oferecer flores na rua às mulheres. Como não quero ficar ausente dessa comemoração, aqui ficam algumas vozes femininas que muito prezo:


  Patsy Cline — Crazy — 1962

Joan Baez — Diamonds and Rust —1975


 Abba (voz de Agnetha Fältskog e Anni-Frid Lyngstad) — The Winner Takes it All — 1980


The Seekers (voz de Judith Durham) — The Carnival is Over — ao vivo em 1967

13/10/14

Recordações de uma America esquecida

Uma fotografia mítica, captada no filme Heartworn Highways (1981)

Townes Van Zandt (1944–1997) é apontado como um dos grandes letristas, compositores e intérpretes da música Folk/Country americana do século passado, chegando ser comparado a Bob Dylan (que admirava, e por quem era admirado) no que respeita ao virtuosismo poético, de cariz autobiográfico, que dominava grande parte dos seus temas. O seu nome permanece contudo largamente desconhecido nos dias de hoje, invisível fora do circuito musical mais próximo ao género Country – uma figura de culto que, mesmo depois de ter recebido uma certa atenção mediática póstuma (assinalada, entre outros registos, no aclamado documentário Be Here to Love Me, de 2004), parece ter regressado ao lugar espectral que sempre ocupou em vida: nunca chegou a ter um hit digno desse nome ao longo de toda a carreira, nem nenhum dos seus albuns registou um sucesso assinalável de vendas, e os seus temas de maior popularidade (com destaque para Pancho and Lefty) apenas chegaram ao tops através de covers feitos por outros artistas. A enorme influência e reconhecimento que teve dentro meio, entre pares, não chegou junto do grande público com o mesmo impacto. A Townes Van Zandt não chegou sequer uma oportunidade fugaz que o resgatasse da escuridão, como sucedeu a Sixto Rodriguez (a.k.a. Sugar Man) após décadas de esquecimento. 

Morreu cedo, aos 52 anos, vítima de abuso prolongado de drogas duras e álcool, e de uma vida nómada carregada de dor e sofrimento (Van Zandt viu-se desde cedo privado das recordações de infância, apagadas por efeito de um tratamento de insulina para a bipolaridade), parcelas de angústia somadas que transparecem a cada palavra entoada, enquanto em seu redor se erguem melodias singulares a dedos de guitarra, transfiguradoras de sentimentos e emoções. A dor contida nestas canções é terna mas incomensurável, ancorada no coração da província americana e no interior de uma alma despedaçada.

Não sou admirador ou conhecedor de música Country, mas há temas e nomes que consigo apreciar sem reservas, calhe cruzar-me com a audição de um seu registo, e Townes Van Zandt é um desses casos. Deixo quatro sugestões a servirem de cartão de visita, temas que me são particularmente caros na discografia deste autor - escolhas em todo caso difíceis, considerando as dezenas por onde poderia ter optado sem prejuízo para este "pódio". Destaque para as fabulosas melodias (por vezes de uma beleza atroz e dilacerante, veja-se a primeira de todas), para o dedilhar limpo na guitarra, e para as letras e construção poética dos textos.


(Quicksilver Daydreams of) Maria – do álbum Townes Van Zandt – 1969


Pancho and Lefty – do álbum The Late Great Townes Van Zandt – 1972 (aqui em versão ao vivo)


eminente

"eminente", in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [em linha], 2008-2013, https://www.priberam.pt/dlpo/eminente [consultado em 13-10-2014].

Our Mother the Mountain – do álbum homónimo (1969)


Fare thee well, Miss Carousel – do álbum Townes Van Zandt – 1969


Geraldine & Townes - circa 1977


Nota final: esta entrada no blogue deve a sua existência ao programa da TSF, "Zona de Conforto", de 10 de Outubro passado, apresentado por Pedro Adão e Silva

30/01/14

Oldies intemporais - por Sam Cooke, The Ronettes e Les Surfs

Calhou ter ouvido esta semana que passou, no programa da TSF "A Playlist de...", a escolha musical do actor e DJ português Nuno Lopes (a emissão pode ser integralmente escutada online aqui). Também calhou - de vez em quando estas coisas acontecem - partilhar o meu gosto e entusiasmo por dois dos títulos que passaram, dois temas dos sixties que perduraram até aos dias de hoje, envelheceram bem, grangeando reconhecimento e "estatuto" um pouco por todo o lado.

O primeiro tema intitula-se Be My Baby, foi cunhado pelas (The) Ronettes em 1963, e, segundo consta nos registos históricos, levou a mente criativa dos Beach Boys, Brian Wilson, a considerá-la a melhor canção pop alguma vez produzida. Que me recorde, ouvi esta música pela primeira vez quando, também pela primeira vez, vi o filme Mean Streets - Os Cavaleiros do Asfalto (Martin Scorsese 1973) - faz parte da sequência de apresentação - e fiquei logo por essa altura preso à sua energia contagiante e aos seus encantos (música e filme).


The Ronettes - Be My Baby

Muitos anos volvidos, eis que uma cover espanhola do tema, interpretada pela banda Les Surfs (originária de Madagascar), surge como polarizador emocional no filme Tabu, de Miguel Gomes (2012), uma obra singular no cinema português, que aproveita da melhor forma a melodia para traduzir aquilo que as imagens sugerem e as palavras nem sempre traduzem - sendo inclusivamente tocada por uma banda ficcional dentro do filme. E é de facto uma bela cover.


Les Surfs - Tú serás mi baby

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O segundo tema que aproveito da playlist de Nuno Lopes, A Change Is Gonna Come, foi gravado em 1964, lançado após a morte do seu intérprete (nesse mesmo ano, em circunstâncias ainda envoltas em polémica), e viria a tornar-se um hino do movimento de luta pelos direitos civis na América em anos decorrentes. Sam Cooke (uma voz fabulosa) inspirou-se em Blowing in the Wind, intepretado por Bob Dylan, bem como na sua ressonância e significância anti-racismo, para compor este tema imortal. Para ouvir alto, como toda a grande música...

Sam Cooke - A Change Is Gonna Come

De Sam Cooke proponho agora um tema mais "leve" (mas talvez não menos sedutor), gravado em 1960: Wonderful World (não confundir com What a Wonderful World, de Louis Armstrong, 1967). Invariavelmente, foi através do cinema, numa altura em que não havia Internet, que me cruzei, para sempre, com ele. O filme intitula-se Witness - A Testemunha (Peter Weir - 1985), e esta feel-good-love-song acondiciona adequadamente uma sequência chave no enredo.


Sam Cooke - Wonderful World

29/12/13

Led Zeppelin


John Bonham (bateria), Robert Plant (voz), Jimmy Page (guitarra) e John Paul Jones (baixo, teclado).

Travei conhecimento com os Led Zeppelin da forma que presumo ser a mais popular entre os soon-to-be-fans da banda: alguém me passou uma cassete com uma série de temas de vários artistas (nos tempos em que esse suporte era moeda corrente nas gravações de e para amigos) e lá para o meio, misturada entre as demais desconhecidas, sem qualquer contexto ou destaque, aparecia Stairway to Heaven. Até podia ser que os restantes trabalhos da banda não prestassem para nada (viria a descobrir mais tarde que não era assim, e que os Zeppelin, no auge da sua carreira, primeira metade dos ano 70, suplantaram os Rolling Stones em discos e bilhetes para concertos vendidos), mas aquele som em específico significou, naquele momento em que o ouvi pela primeira vez, uma verdadeira escadaria até ao céu - nunca havia experienciado nada que remotamente se assemelhasse àquilo. Começava com uma melódica suavidade acústica dedilhada por Jimmy Page, acompanhado por uma flauta serena e pela voz, em plena contenção, de Robert Plant, e terminava, finda a "escadaria" e o crescente instrumental progressivo, numa explosiva orgia eléctrica de texturas e cores. Assim que acabou, volvi o walkman atrás e repeti a audição... e depois repeti-a mais uma série de vezes. Com uns invulgares 8 minutos de duração, Stairway to Heaven é a composição mais popular de uma das bandas de rock/heavy-metal mais importantes e influentes de sempre, mas é apenas um caso de excelência entre os muitos que há para descobrir (para quem não conheça o grupo, obviamente). 

 A capa do primeiro album (sem título) - 1968

A sonoridade típica dos Zeppelin, mantida num espaço espantosamente homogéneo ao longo de toda a carreira (mesmo considerando as naturais evoluções instrumentais), é grave, volumosa e bastante preenchida, com cada instrumento a ocupar um espaço simultaneamente protagonista e complementar em relação aos restantes, numa harmonia pesada, poderosa e constante que os aproxima daquilo que pode ser chamado heavy-metal (género de que aliás são precursores).  E contudo, não é bem isso que é, ou não é "apenas" isso. É heavy e é metal, sem dúvida, pelo menos em grande parte do reportório, mas é também folk, blues e "simples" rock'n'roll, tudo misturado, e apresentado por vezes em baladas serenas e "doridas" que contrariam as bases do género, mas que ao mesmo tempo não deixam de lhe estar próximas.


A capa de Houses of the Holy - 1973  - inspirada na obra de Ficção Científica Childhood's End, de Arthur C. Clarke

Os Led Zeppelin estiveram reunidos enquanto banda entre 1968 e 1980, ano em que John Bonham faleceu. Desde então os restantes membros têm aparecido juntos em reuniões esporádicas e concertos ao vivo.

Vou resistir à tentação de colocar aqui o tema Stairway to Heaven (e o mesmo em relação ao curiosíssimo The Battle of Evermore), e vou optar por temas mais "normais" dentro daquilo que será a sua identidade sonora.

Good Times Bad Times,  do álbum I - 1969


Celebration Day,  do álbum III - 1970


Kashmir,  do álbum Physical Graffiti - 1975

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Deixo ainda uma parte do tributo da presidência dos Estados Unidos no "Kennedy Center Honors" aos Led Zeppelin. A cerimónia decorreu a 26 de Dezembro de 2012, contou com actuações dos Foo Fighters, Kid Rock, Lenny Kravitz e das Heart a interpretarem temas da banda, e com Jack Black a apresentar.


10/12/13

Ainda sobre Shutter Island...

... para referenciar a adequação da banda sonora, escolhida por Robbie Robertson, antigo guitarrista dos The Band, e amigo e colaborador de Scorsese desde que este filmou o concerto de despedida da banda em The Last Waltz. É formada por um alinhamento de temas dispersos, reunindo temas clássicos e modernos não originais (não foram compostos para o filme), e que no seu conjunto criam a ambiência onírica certa para acondicionar os dilacerados estados de alma de Teddy Daniels (DiCaprio).

A primeira sugestão que deixo, da autoria do compositor poláco Krzysztof Penderecki, será facilmente reconhecida por quem tiver visto o filme. É a peça responsável pelo compasso sinistro e sombrio que envolve Teddy no momento em que está prestes a iniciar a investigação (e que se faz ouvir também mais tarde, noutros momentos ao longo do filme). De início começamos por imaginar que seja a sirene do ferry-boat a sinalizar a aproximação a terra, mas o som prolonga-se à medida que penetramos no mistério da ilha e no pesadelo demente do seu conhecimento.


Outra sugestão é o tema escolhido para acompanhar os créditos finais, This Bitter Earth, segundo uma interpretação de Dinah Washington que data de 1960, aqui sobreposta ao tema On the Nature of Daylight, de Max Richter, publicado em 2004. Após a decisão tomada conscientemente pela personagem de DiCaprio ao fechar do pano, seria difícil acertar mais perto do centro do alvo no que respeita a um invólucro emocional trágico e sereno apropriado à ocasião, tanto no plano melódico e instrumental, como na letra.


This bitter earth
Well, what fruit it bears
What good is love
Mmmm that no one shares
And if my life is like the dust
Oooh that hides the glow of a rose
What good am I
Heaven only knows
Lord, this bitter earth
Yes, can be so cold
Today youre young
Too soon, youre old
But while a voice within me cries
Im sure someone may answer my call
And this bitter earth
Ooooo may not
Oh be so bitter after all

30/11/13

"Fora de tempo"

De entre os temas que me propus abordar no Câmara Subjectiva, a Música é aquele em que me encontro menos confortável, o que menos domino - ou não domino de todo, será mais adequado dizer - aquele sobre o qual tenho menos conhecimentos técnicos, históricos ou contextuais, e em que me custa mais encontrar palavras para definir o sentimento artístico/intelectual que me inunda enquanto dele me alimento. Não sei justificar por que é que gosto da música que gosto, de onde surgiu esse gosto, nem por que razão nele encontro pontos de contacto e de afastamento tão amplos e tão inacreditáveis entre os intérpretes e bandas que aprecio. 

Tentando pensar racionalmente, e de uma forma geral, a melodia e a harmonia instrumental/vocal são talvez as características que valorizo mais num tema, e a letra e a temática aqueles a que ligo menos (mesmo que delas possa gostar à mesma). A conversa que se estabelece entre os instrumentos, os diálogos entre eles que se distinguem no meio dessa conversa, as vozes individuais de cada um deles (e as vozes dos intérpretes, naturalmente), o ritmo, a harmonia, a capacidade que tem de ordenar ao nosso corpo para que se mexa, sobrepondo-se às ordens conscientes do cérebro. Mas às vezes, ou muitas vezes, um refrão, a sonoridade de um instrumento em particular, a voz de um(a) artista, a sua fragilidade, ou potência ou amplitude. Porquê aqueles em concreto? Não sei.

Se por um lado as minhas "raízes musicais" estão ligadas ao início dos anos 90 e à explosão cultural originada em Seattle a que deram o nome de Grunge (foi nessa altura, já bastante tardiamente na minha vida, diria, que despertei de facto para música), é contudo nos anos 60 que encontro o meu templo espiritual - onde estão reunidos o maior número de intérpretes, bandas e temas de que gosto. A música que se produz actualmente - seja de que género/intérprete/banda - não me fascina, não me interessa, não me cativa, não me toca (passe a inversão de sentido). Como em tudo, naturalmente há excepções. A excepção que importa referir a este propósito tem a ver com a Música produzida para Cinema - por estranho que pareça (ou se calhar não tanto, olhando para o tipo de mensagens aqui publicadas no blogue), é por via das imagens que me chega o gosto por esse segmento específico dentro da Música.

Voltando aos sixties: são eles a razão desta mensagem - é neles que se vai centrar a esmagadora maioria das abordagens sobre Música que por aqui se publicarão - e nada mais justo e apropriado do que começar pela Banda, por Aquela que me enche mais as medidas, A que tem o maior número de temas de que gosto, A que tem o maior número de álbuns em que gosto de todos os temas sem excepção, A que consigo ouvir mais tempo seguido, Aquela a que torno com mais frequência para encontrar uma zona de conforto e paz interior. A Banda... Os Beatles. (por uma questão de "jeito fonético", excusar-me-ei de os tratar por The Beatles, perdoem-me os puristas da língua...) 


Os Beatles, em conjunto com os (The) Rolling Stones, protagonizaram a grande revolução cultural dos anos sessenta na qualidade de "cabeças de cartaz", transpondo as barreiras da música e as fronteiras entre países para influenciar os hábitos diários de milhões de fãs por todo o mundo (o Japão é um caso curioso neste panorama). Se no início dos anos sessenta o tom que caracterizava a banda (e os primeiros três ou quatro álbuns) se centrava quase exclusivamente em temas românticos pop/rock que incendiaram plateias de jovens histéricas (muito bons temas, há que o referir), com o passar dos anos, o natural apuramento das qualidades técnicas e o aprofundar das relações de amizade e hábitos de trabalho entre John Lennon, Paul McCartney, Ringo Starr e George Harrison (pela ordem na foto) levaram a um período de inovação e experimentalismo (iniciado no álbum Rubber Soul - 1965) que galgou e misturou géneros, revolucionou toda uma era e deixou um legado cultural que ainda hoje persiste. Os Beatles separaram-se em 1970, não tendo voltado a actuar mais em conjunto. A lista de recordes batidos/mantidos pela banda é extensa, e quase custa a acreditar nos números apresentados, tendo em contar a época em que sucederam, mas penso que seja muito mais pela qualidade da música e imortalidade de alguns temas que a banda será recordada no futuro.
Seria relativamente simples escolher referências de entre os temas mais conhecidos e óbvios da banda para "despejar" aqui (Twist and Shout, Love Me Do, Yesterday, Eleanor Rigby, Yellow Submarine, All You Need is Love, While My Guitar Gently Weeps, Hey Jude ou Let It Be vêm sem grande esforço à memória), mas não é de todo isso que pretendo deste espaço - é antes dar a conhecer outros menos divulgados, representativos dos vários estádios musicais por que passou, mesmo que no caso d'Os Beatles isso seja uma tarefa ingrata. Quatro temas, um por cada membro da banda:


I Saw Her Standing There, do álbum Please Please Me - 1963 

Think for Yourself, do álbum Rubber Soul - 1965

She's Leaving Home - do álbum Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band  - 1967

I Me Mine, do álbum Let It Be - 1970