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16/02/14

A Balada de Cardoso Pires



A primeira obra que li de José Cardoso Pires, e aquela que ainda hoje mais estimo, foi a Balada da Praia dos Cães (Dissertação sobre um crime) – um título que já conhecia de há muito, de momento incerto no tempo, por ter visto na televisão o anúncio de que ia passar o filme - algures na segunda metade do anos oitenta, RTP2, quando a transmissão por cabo e a Internet não passavam de sonhos futuristas, apenas ao alcance dos visionários da Ficção Científica. O título, nessa altura, juntamente com algumas imagens da dita adaptação, ficou-me gravado na memória. Não sabia quem era José Cardoso Pires, mas aquele título! – aquele título era (é!) um dos mais belos que já ouvira atribuídos a um filme/livro. Balada da Praia dos Cães, que mistérios ocultos encerraria tão melódica e inspirada escolha? O enredo, a julgar pelas imagens, teria qualquer coisa a ver com um crime passional, e à cabeça do elenco Raúl Solnado, num papel “sério”, a interpretar o inspector da “Judite” que o investiga (no livro, sobre a personagem: “… Elias Santana, chefe de brigada. Indivíduo de fraca compleição física, palidez acentuada, 1 metro e 73 de altura; olhos salientes (exoftálmicos) denotando um avançado estado de miopia, cor de pele e outros sinais reveladores de perturbações digestivas, provavelmente gastrite crónica.”). Acabei por perder o filme dessa vez.

Muito anos depois li o romance – e aí fiquei rendido ao génio de Cardoso Pires, àquilo que pode ser descrito como a sua criatividade literária, à sedução estilística que emana da sua prosa, à imagem realista, desenganada e decadente que apresenta sobre a moral e os costumes sociais – tão enraizados na nossa cultura, tão portugueses. Era de uma investigação policial que se tratava de facto, mas tal investigação, servindo enfim de fio condutor à narrativa, era o que menos interessava na leitura. Pano de fundo: o retrato de uma nação vergada pela ditadura e pela opressão criminosa do regime – e dentro dela, através das recriações “sonhadas” pela mente do Elias, o “Covas”, a minúcia do comportamento humano revelando-se aos poucos, como sucede com o negativo de uma fotografia, até surgir a imagem humana em todo o seu esplendor, finalmente nítida e colorida. Recriar – no sentido não só de perceber como ocorreu (o crime), mas no sentido de revelar quem são – o que são - as pessoas envolvidas. Revelem-se as pessoas e mais os seus comportamentos que os factos e motivos surgem naturalmente, por dedução. Em frente a “Covas”, uma mulher, Mena, o apêndice de onde vai partir um dos vértices da investigação, mas também o corpo misterioso e infinitamente sedutor onde o inspector vai encontrar o estímulo perfeito para outro tipo de fantasias.

Balada da Praia dos Cães, publicado em 1982, é um romance ficcional baseado em factos reais ocorridos em 1960 - “…tragédia que tinha perturbado profundamente a opinião pública do país.” Escreve ainda José Cardoso Pires em nota final: “... entre o facto e a ficção há aproximações e distanciamentos a cada passo, e tudo se pretende num paralelismo autónomo e numa confluência conflituosa, numa verdade e numa dúvida que não são pura coincidência.“ Estamos bastante longe da ficção-entretém inconsequente de Conan Doyle ou Agatha Christie, por exemplo, por mais aprazível que esta possa ser, não só pelo alcance político e social da obra de Cardoso Pires, esse mergulho profundo na história do nosso país, como pela desenvoltura estilística do autor, que o coloca num patamar artístico a que esses outros não chegam, nem que lhes pusessem um escadote à frente.

Transcrevo abaixo o portentoso início do romance – coisa única e inesquecível, que revela, entre outras, uma das marcas reconhecíveis do autor: as suaves transições narrativas no espaço e no tempo. Veja-se como a partir de um frio e “matemático” relatório de autópsia/ocorrência Cardoso Pires transpõe o enredo para os domínios da ficção, e como, a partir desse momento, organiza as palavras para recriar acontecimentos com um apurado sentido visual, um domínio absoluto da linguagem, e uma riqueza estilística invulgar  – terreno onde a arte se eleva acima do facto descrito. Com algum humor pelo meio.

«
CADÁVER DE UM DESCONHECIDO
encontrado na praia do mastro em 3-4-1960

1.    Indivíduo do sexo masculino, 1.72 m de altura, bom estado de nutrição, idade provável cinquenta anos ----

2.      não aparenta rigidez cadavérica; não tem livores ---

3.     na calote craniana, ao nível da sutura dta. occipito-parietal, há uma perfuração circular de 4 mm de diâmetro provocada por projéctil ---

4.      perfuração do temporal esq., na tábua interna ---

5.     ruptura da dura-mater ao nível dos orifícios descritos nos ossos ---

6.    a órbita esq. apresenta uma fractura esquirilosa com perda de substância óssea numa área circular de 4 mm de diâmetro, à qual se segue um trajecto que se dirige para o lado direito do paladar duro ---

7.       encéfalo em putrefação adiantada, com o aspecto de uma massa verde-cinzenta, fétida ---

8.       perfuração do 3º espaço intercostal com infiltração hemorrágica do músculo circunvizinho ---

9.       perfuração do saco pericárdico ---

10.   perfuração do esófago ---

11.   coração: 4 perfurações interessando sucessivamente a aurícula esq., apêndice auricular esq., artéria pulmonar e base do ventrículo, pesa 300g, em avançado estado de putrefacção ---

12.   perfuração da 7.ª vértebra dorsal num orifício de 4 mm de diâmetro que é início de um trajecto que se prolonga até ao canal raquidiano onde se encontra alojada uma bala de arma de fogo ---

13.   outro projéctil na região muscular do cotovelo esq. ---

14.   bala de arma de fogo alojada no estômago, com depósito de abundante massa sanguínea ---

15.   ausência de sinais de homossexualidade activa ou passiva

Ap. Exame “in situ”: Areal acidentado de pequenas dunas, numa das quais, a cerca de 100 m da estrada se viam a descoberto um cotovelo e um joelho cujos tecidos se apresentavam parcialmente destruídos ---

--- e cobertos de moscas. Removida a areia com os cuidados necessários,  encontrou-se o corpo de um indivíduo do sexo masculino deitado na posição de decúbito lateral esquerdo em adiantado estado de decomposição. Calçava sapatos trocados, isto é, o pé direito no esquerdo e o do esquerdo no direito, e meias de lã em bom uso. Cronómetro de pulso marca  Tissot MM parado nas 05.27.41 horas. Não foram encontrados documentos, haveres, ou quaisquer referências pessoais. Nas regiões a descoberto algumas peças de vestuário apresentavam-se rasgadas pelos cães ---


---------------------- um dos quais, cão de fora e jamais identificado, foi aquele que chamou a atenção dum pescador local e o levou à descoberta do cadáver. Este cão parece que tinha sobrancelhas amarelas, que é coisa de rafeiro lusitano. Provavelmente andava à divina pela costa e como tal deve ter pernoitado na zona dos banhistas que nesta época do ano se resume a algumas armações de ferro e pavilhões a hibernar. Pelo terreno encontravam-se restos de férias, farrapos de jornais soterrados no areal, um sapato naufragado, embalagens perdidas; a boia de socorros a náufragos sempre à vista, dia e noite; refugos de marés vivas; o conhecido cartaz PORTUGAL, Europe’s Best Kept Secret, FLY TAP crucificado num poste solitário. Foi neste verão fantasma que o cachorro em viagem se veio acolher.

Ao alvorecer seguiu jornada rumo ao norte, precisamente na direcção mais deserta, o que não se compreende tratando-se dum animal aos sobejos, a menos que algum fio de cheiro urgente o tivesse chamado de longe; e assim deve ter sido porque quando passou pelo pescador ia a trote direito e de focinho baixo a murmurar. Levava destino, isso se via. Logo adiante apressou o passo, entrou em corrida e desapareceu nas dunas.

Porém não tardou a aparecer, desta vez esgalgado no cume das areias a uivar para os fumos que vinham do oceano. Isto, bem entendido, intrigou o pescador que pelo sim pelo não se dirigiu às arribas, sem que o animal interrompesse um só instante o seu apelo ou o olhasse sequer. E o pescador subindo sempre foi-se chegando a ele e já muito próximo parou e viu:

Viu no fundo duma cova uma conspiração de cães à volta do cadáver dum homem; alguns saltaram para o lado assim que ele apareceu mas logo retomaram a presa; outros nem isso, estavam tão apostados na sua tarefa que se abocanhavam entre eles por cima do corpo do morto.

Há aqui uma certa ironia, diz o inspector Otero da Polícia Judiciária. Segundo consta, a vítima gostava desvairadamente de cães.»

28/11/13

O corpo de Alexandra

Para além das nuvens. Sobre a capacidade que certos autores têm em nos fazer acreditar na palavra enquanto artifício impulsionador do voo. Por um dos nossos melhores.


«A mulher deitada:
Na parede estava espalmada a gravura dum homem-pássaro, de vez em quando ouvia-se o cântico de uma criança muito longínquo. Esta criatura (o homem-pássaro) vinha dos álbuns de Max Ernst e tinha máscara de falcão, bico e olhos de falcão; suspendia uma madona nua pelos cabelos. Tudo muito nítido no desenho. Violentamente nítido, até.
De resto, na manhã de luz onde repousava a mulher deitada, cada traço, cada cor, tinha exactidão e espessura, os próprios lençóis amontoados ao fundo da cama eram relevos de sono num branco carnal. Também o espelho alto, espalmado no lado de dentro da porta, reflectia a exactidão, não a cegueira da luz, e isso porque, cobrindo a entrada a toda a altura do quarto, se apresentava como uma testemunha serena que tudo sabe e tudo viu.
O espelho e a cama. A cama que era rasa e imensa avançava pela manhã de sol entre pontas de cigarro e papéis a boiarem no chão, e a mulher que estava nela (à sombra do homem-pássaro) ia em sono sereno. Por cima e à volta esvoaçavam farrapos de vozes que vinham da rua: deviam ser, eram, as crianças dos vizinhos a brincar no relvado que separava os blocos de apartamentos. Eram, com certeza. Cantavam de roda com uma luz dourada de abelhas ao sol; num Outono assim e num jardim de crianças vê-se sempre uma velha sentada num banco, de boca aberta para o céu. Certo e fatal. Uma velha voltada para o sol e com uma dentadura postiça na palma da mão.
Bem, a cama. A gravura da madona desnuda, o espelho, os cigarros, tudo isso. Havia também a mão, a mão esquecida sobre um livro aberto em inglês, The Diary of Anais Nin, impressionava pela secura. Surpreendia que uns dedos assim gastos, fumados e ardidos de insónia, pertencessem a um corpo ainda jovem como aquele. E consciente, tinha todo o traçado de um corpo consciente. Experimentado. Dono do seu destino, ou parecendo. Um pescoço em linhas afirmativas, seios precisos e terminados em botão de cobre (estavam eriçadas essas pontas naquele momento: algum sonho?), coxas densas. Talvez longas demais, as coxas, e demasiado eloquentes, se assim se pode dizer. Ou talvez não, porque, atentando bem, essa massa de músculos aqui na confluências das pernas ou os tornozelos um pouco espessos só tornavam mais pessoal o conjunto. Com efeito toda aquela natureza que estava à vista era nitidamente pessoal e una. Apresentava-se como uma extensão de claridade onde crepitava o púbis, delta de Vénus, asa nocturna ou como se queira chamar à labareda negra que se imobiliza num corpo assim.
Ronco dum avião a declinar sobre a cidade, a caminho do aeroporto.
A mulher adormecida repetia-se numa grande foto a cores que havia, ou houve, algures naquele quarto, e onde ela aparecia a amparar uma criança loura a cavalo a cavalo da proa de um barco. Ambos em pose de mãe e filho numa praia de coqueiros, a embarcação com uma carraça esculpida na proa (as terríveis máscaras dos demónios navegadores que habitam o rio São Francisco, salvo erro) e, firmando mais o olhar, lá estava, lá estaria, certa manha de pele, uma nódoa do feitio duma mariposa, impressa no ombro do garoto. Beto, era ele.
«Maninha, como é que o dói-dói nasceu?»
«Não é dói-dói, é um sinal. Veio assim quando o Beto saiu da barriga da mãe.»
Pela infância fora o pequeno não parava de interrogar ao espelho a nódoa que lhe selava a natureza. Temia que fosse crescendo com a idade, e alastrasse, e escurecesse, cobrindo-lhe o corpo até o transformar num preto, como lhe dissera uma miúda na praia. Um preto, que coisa. E sendo louro, ainda pior. Oh, oh, o preto louro. Oh, oh, o preto louro.
«Maninha.»
«Que é?»
«Maninha, a Maninha não tem sinais?»
«Tão bonitos como esse, não.»
«São mais grandes?»
«São diferentes. São uma picadela de sol, não têm puto de graça. Vá, tapa o ombro e por favor deixa-te de coçar.»
Ano a ano o garoto ia tomando corpo no espelho pregado na porta do quarto, com olhos naquela marca invencível.
«Maninha.»
«Que é?»
«Os teus sinais.»
«A Maninha não tem sinais, quando acaba o Verão desaparecem sempre.»
«Mostra.»
Então a mulher que agora dormia endireitou-se diante do espelho, e de rosto apontado para longe abriu o roupão de par a par. Nem nos seios, nem no ventre, nem a todo o comprimento das coxas e dos braços tinha um único ponto escuro, uma sarda ou memória de sarda. Deixou-se ficar assim, obediente, exposta à curiosidade do pequeno. Mas num movimento lento, sempre com os olhos no espelho, levou a mão à virilha; e na virilha, mesmo na orla do púbis, fez surgir um pequeno sinal que era como que uma gota nocturna, densa e minúscula e talvez orgulhosa.
Beto aproximou o olhar, atraído e ao mesmo tempo receoso, mas Maninha pegou-lhe num dedo e conduziu-o até ao sinal para lhe dar a conhecer a macieza e o contorno dessa revelação, tornando-a bem palpável, sem mistério. Sempre de cabeça levantada para o espelho, deixou-se estudar e sentir pelo garoto. Imóvel. Pacientemente como um animal que espera.
Quantos beijos, quantas bocas não teriam perscrutado e segredado aquele sinal. E com que engenhos, com que imaginações. Quantas vezes Roberto Waldir, o mais amado, com os seus dentes irradiantes, assinou a pele da mulher deitada, como parece que ninguém mais a soube assinar. E no entanto ela bem o prevenira: «Tenho um corpo ingrato, não te fies.» Disse-lho, deu-lhe o aviso, quanto a isso não pode haver qualquer dúvida. Deu-o certamente também a outros amantes porque nestes jogos de cama as pessoas repetem-se quase sempre. Esta Maninha. Esta Alexandra de livro adormecido à margem da sua nudez. Todo o corpo dela era ingrato, e se calhar ainda bem; ou ainda mal, Alexandra já nem sabia. A verdade é que era um território, um lume de pele, onde havia de ser bom depor confidências; e que embora propício ao registo absorvia todas as marcas felizes logo que ficava solitário.»

in Alexandra Alpha - José Cardoso Pires - 1987