Mostrar mensagens com a etiqueta José Saramago. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta José Saramago. Mostrar todas as mensagens

18/12/13

Ensaio Sobre a Cegueira - José Saramago - 1995


Cegueira também é isto, viver num mundo onde se tenha acabado a esperança. 

Ensaio Sobre a Cegueira foi o último livro publicado por José Saramago antes de lhe ter sido atribuído o Prémio Nobel da Literatura, em 1998, e apesar de não constituir uma das peças basilares para a definição do seu estatuto enquanto autor/escritor/pensador mundialmente reconhecido (algo que por esta altura já não tinha contestação), não deixa de ser um marco incontornável na sua obra, abordando um conjunto de temáticas inseridas na sua visão simultaneamante crítica e humanista das normas que regem a vida em sociedade. Servindo-se da voz literária inconfundível que Saramago cunhou em Levantado do Chão (1980), e que celebrizou os seus romances desde então, Ensaio Sobre a Cegueira é mais uma imponente "reflexão que obriga a reflectir", uma meditação inquietante sobre o "estado das coisas", com poder de fogo suficiente para nos fazer questionar a ordem e a prioridade das escolhas na sociedade em que vivemos, sobretudo do ponto de vista dos valores morais que julgamos partilhar - aqueles que supostamente nos separariam dos animais irracionais.

E se todas as pessoas cegassem de um momento para o outro?

Se de um ponto de vista narrativo mais imediato pareça evidente o apelo sedutor de um enredo que coloca a nu a fragilidade estrutural da teia comunitária e acompanha a derrocada social tornando toda a gente cega, focando os infortúnios quotidianos de perto, ao nível do indivíduo, e não poupando nas descrições sórdidas e bastante perturbantes dos eventos que provavelmente sucederiam nessas circunstâncias, a cegueira a que a alude o título do livro - e sobre a qual é erguido este "ensaio" - não é de ordem física, mas pertence antes ao domínio espiritual e moral. É a denúncia desta cegueira social que interessa a Saramago explorar, e se noutras obras suas (em todas?) essa preocupação já era um factor presente, determinante até, aqui ganha contornos ainda mais explícitos - a(s) palavra(s) assim o estabelecem. 

Partindo de um mecanismo de impulsão narrativo comum na sua escrita, um "what if…" que subverte determinado pormenor da realidade para depois explorar, numa sucessão de encadeamentos causa-efeito, como decorreria o dia-a-dia das personagens face à mudança sugerida, Saramago encena, usando como cenário de fundo a sociedade contemporânea e a vida numa grande metrópole, aquilo que pode ser descrito como uma espécie de abordagem alternativa à Alegoria da Caverna, de Platão, com a deliciosa particularidade de inverter o modo como se alcança o conhecimento. Mantêm-se a premissa fundamental (o caminho em direção à verdade) e a questão das perspectivas que se actualizam (e de onde parte a absorção da realidade), "Era cego e agora consigo ver", mas parte-se o princípio físico inverso para justificar o princípio moral, "Foi necessário cegar para conseguir ver". E aquilo que as personagens sem nome conseguem ver nitidamente neste livro, agora que estão cegas, é a importância de valores que há muito relegaram para segundo plano: o respeito, a confiança e o direito à igualdade entre todo os que nascem humanos. Saramago regressaria mais tarde à alegoria de Platão no livro A Caverna (2000), mas trata-se de um romance menor, sem o alcance nem o apelo abrangentes de Ensaio Sobre a Cegueira.
 
Aquilo que poderia facilmente escorregar para o desastre literário nas mãos de um autor menos dotado, ganha no discurso rigoroso e sapiente de Saramago, com os habituais espaços extra-narrativos dedicados à análise incisiva e por vezes irónica dos "porquês das coisas", a relevância de uma epifania (destituída da sua vertente religiosa), tratada a espaços com a violência (controlada) de um terramoto, e a outros com a sensibilidade de quem entende a importância e a necessidade do afecto humano. Será porventura um dos romances de mais fácil acesso a quem pretenda iniciar-se na literatura de Saramago, mesmo não abdicando o livro da prosa "estranha" que foge à estruturação sintáctica do português tal como nos ensinaram na escola. Um factor diferenciativo perante o qual apenas nos devemos prostrar- é que, depois de se entranhar, dificilmente o quereremos esquecer. Ponto de partida, portanto, para outras obras de relevo que se afiguream mais densas no corpo de trabalho de Saramago (Memorial do Convento, O Ano da Morte de Ricardo ReisO Evangelho Segundo Jesus Cristo e História do Cerco de Lisboa por exemplo), mas que têm muito mais para oferecer do que a leitura isolada de Ensaio Sobre a Cegueira.

Se não formos capazes de viver inteiramente como pessoas, ao menos, façamos tudo para não viver inteiramente como animais.


06/12/13

O retorno do "Supremo Medo"

«Pigarreou um pouco para limpar a voz e começou a ler, senhor director-geral da televisão nacional, estimado senhor, para os efeitos que as pessoas interessadas tiverem por convenientes venho informar que a partir da meia-noite de hoje se voltará a morrer tal como sucedia, sem protestos notórios, desde o princípio dos tempos e até ao dia trinta e um de dezembro do ano passado, devo explicar que a intenção que me levou a interromper a minha actividade, a parar de matar, a embainhar a emblemática gadanha que imaginativos pintores e gravadores doutro tempo me puseram na mão, foi oferecer a esses seres humanos que tanto me detestam uma pequena amostra do que para eles seria viver sempre, isto é, eternamente, embora, aqui entre nós dois, senhor director-geral da televisão nacional, eu tenha de confessar a minha total ignorância sobre se as duas palavras, sempre e eternamente, são tão sinónimas quanto em geral se crê, ora bem, passado este período de alguns meses a que poderíamos chamar de prova de resistência ou de tempo gratuito e tendo em conta os lamentáveis resultados da experiencia, tanto de um ponto de vista moral, isto é, filosófico, como de um ponto de vista pragmático, isto é, social, considerei que o melhor para as famílias e para a sociedade no seu conjunto, quer no sentido vertical, quer no sentido horizontal, seria vir a publico reconhecer o equívoco de que sou responsável e anunciar o imediato regresso à normalidade, o que significará que todas aquelas pessoas que já deveriam estar mortas, mas que, com saúde ou sem ela, permanecem neste mundo, se lhes apagará a candeia da vida quando se extinguir no ar a última badalada da meia-noite, note-se que a referência à badalada é meramente simbólica, não seja que a alguém lhe passe pela cabeça a ideia estúpida de encravar os relógios dos campanários ou de retirar o badalo aos sinos pensando que dessa maneira deteria o tempo e contrariaria o que é minha decisão irrevogável, esta de devolver o supremo medo ao coração dos homens, portanto resignem-se e morram sem discutir porque de nada lhes adiantaria, porém, um ponto há em que sinto ser minha obrigação dar a mão à palmatória, o qual tem que ver como injusto e cruel procedimento que vinha seguindo, que era tirar a vida às pessoas à falsa-fé, sem aviso prévio, sem dizer água-vai, tenho de reconhecer que se tratava de uma indecente brutalidade, quantas vezes não dei nem sequer tempo a que fizessem testamento, é certo que na maior parte dos casos lhes mandava uma doença para abrir caminho, mas as doenças têm algo de curioso, os seres humanos sempre esperam safar-se delas, de modo que só quando já é tarde de mais se vem a saber que aquela iria ser a última, enfim, a partir de agora toda a gente passará a ser prevenida por igual e terá um prazo de uma semana para pôr em ordem o que ainda lhe resta de vida, fazer testamento e dizer adeus à família, pedindo perdão pelo mal feito ou fazendo as pazes com o primo com quem desde há vinte anos estava de relações cortadas, disto isto, senhor director-geral da televisão nacional, só me resta pedir-lhe que faça chegar hoje mesmo a todos os lares do país esta minha mensagem autógrafa, que assino com o nome com que geralmente se me conhece, morte.»

in As Intermitências da Morte - José Saramago - 2005