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03/02/20

Sesimbra - os primeiros 15 minutos de 2020

... Ou, "Como fotografar fogo de artifício"...

As seguintes fotos são o resultado final de uma sessão experimental em Sesimbra, obtidas durante a passagem de ano de 2019 para 2020. Captar fogo de artifício era uma vontade antiga, já com alguns anos, mas que até esse momento não havia conseguido concretizar, talvez porque as ocasiões e locais onde ocorrem espectáculos desta natureza, com envergadura suficientemente grande para justificar o "investimento", impliquem na maioria dos casos um trade off, um sacrifício por parte do fotógrafo: não estar junto da família/amigos. Pelo menos se se considerar que a natureza do trabalho não tem a ver com trabalho propriamente dito, e não envolve qualquer recompensa para lá do "gosto pela coisa" e da satisfação de alcançar alguns objectivos. Enquanto uns disparam rolhas de garrafas de espumante, outros disparam obturadores de máquinas fotográficas...! Contas feitas, foram duas horas em deslocações (para "lá" e para "cá"), mais uma hora em pé ao frio num local mais ou menos isolado, cerca de 120 disparos ao longo de 15 minutos de espectáculo, e umas míseras 5 fotografias aproveitáveis. Ainda assim, valeu claramente a pena.

Equipamento utilizado: Canon 6D + Canon 24-105mm f/4 L + tripé + cabo disparador. Edição em Adobe Photoshop Lightroom.

Eis a seleção, seguida de algumas dicas técnicas sobre como fotografar fogo de artifício e respectivo setup utilizado.


 f/5.6 - ISO 400 - 2s  (clique para aumentar)


f/6.3 - ISO 400 - 3.2s

f/8 - ISO 400 - 3.2s


f/8 - ISO 200 - 5s


f/6.3 - ISO 400 - 4s.

Considerar então o seguinte:

1 - O planeamento é importante! A partir do momento em que o espectáculo está anunciado, escolha o local com antecedência. Visite o local com antecedência - fisicamente, a pé, isto é, sem ser através do Google Earth. Antecedência, neste caso, significa noutra data, de preferência durante o dia, com tempo suficiente para explorar as várias alternativas ao dispor no terreno. O que se pretende é encontrar um local que proporcione um ponto de vista abrangente, que permita ao mesmo tempo um enquadramento amplo do fogo de artifício e do cenário envolvente. Um cenário que não seja apenas o dito fogo com o céu escuro como plano de fundo. Leve a máquina e espreite pelo visor. Capte algumas fotos de exemplo, estude os enquadramentos. Também se pretende evitar que mais tarde, no dia D, não tenha de andar à pressa, minutos antes do início esperado, a ver onde poderá ser um bom local para plantar o tripé, sendo que o mais certo é por essa altura já haver gente e carros a preencher e a entupir todas as vias de acesso.

2 - Planeamento, parte II. Chegue ao local pelo menos com uma boa meia-hora de antecedência. Para evitar que já esteja ocupado, e para ter tempo suficiente para uns disparos de teste durante a fase de setup do equipamento. O spot que escolhi começou a encher de gente a cerca de 10 minutos para a meia-noite,  gente que só estava ali, como eu, para ver o espectáculo a partir de um ponto de vista privilegiado. Se eu tivesse chegado em cima da hora, não teria tido lugar "à frente", e não teria conseguido este olhar panorâmico.

3 - Para captar um fogo de artifício, e porque a cadência dos projécteis e lançamentos é imprevisível, a ideia é fazer uma série de "longas exposições" seguidas (e não o contrário, que seriam disparos com uma velocidade de obturação rápida, para congelar a imagem). A lógica é manter o sensor aberto, a cada disparo, o tempo suficiente para registar o percurso todo percorrido pelos projécteis, desde que são disparados, passando pela explosão, e até que as faixas de luz todas daí resultantes desvaneçam e desapareçam por completo. Os arrastos de luz dos projecteis são assim gravados pelo sensor durante o tempo que está aberto. O tempo que considerei apropriado foi de entre 2 a 4 segundos, ou seja, durante a duração de espectáculo, mantive a máquina sempre a disparar (assim que acabava uma captura, carregava de novo no botão para começar outra), obtendo a cada disparo uma exposição longa, que variava entre 2 a 4 segundos. Variava porque o metering é feito a cada disparo (carregado até meio no botão, sucedem várias coisas, entre eles a medição de luz, ou metering), e, conforme a claridade que há no cenário, conforme o tempo que a máquina determina para estar com o sensor aberto, pelo menos se estiver configurada no modo de prioridade à Abertura (mais sobre o assunto no ponto 7). No final da sessão haverá uma série de registos para esquecer (a maioria), e provavelmente, dependendo da sorte, uma pequena porção que registou a acção nos momento certos. Faz parte do esperado, numa sessão destas, haver um elevado número de fails, dada a imprevisibilidade da cadência do fogo de artifício. Não fique desencorajado por isso - e normal sobrarem muito poucas fotos que são keepers. A sorte, neste tipo de registo, tem infelizmente um peso desproporcional.

4 - Para captar exposições longas, o setup exige que a máquina esteja estabilizada. A melhor solução para esse efeito é montá-la num tripé. Um tripé ajustado ao peso da máquina, que não balance com o peso da eventual extensão da objectiva, nem com eventuais rajadas de vento.

5 - Adicionalmente ao tripé, importa ter um cabo disparador, para evitar fazer pressão sobre a máquina no momento dos disparos, reduzindo assim as hipóteses de ter a máquina a tremer ou a balançar durante as capturas. Se não tiver um cabo disparador, considere utilizar o temporizador da máquina para colocar algum tempo entre o disparo e o início da captura.

6 - Se a objectiva tiver um Estabilizador de Imagem, desligá-lo. A máquina está num tripé, logo dispensa esse auxiliar electrónico - e queremos mesmo evitar eventuais "coices" do mecanismo que provoquem o balançar do equipamento, mesmo que insignificantes.

7 - Haverá por certo uma série de hipóteses possíveis de setup da máquina para estas ocasiões. Eu escolhi os seguintes: a) modo de prioridade à Abertura, b) Abertura e ISO regulados manualmente, de modo a proporcionarem os tais 2 a 4 segundos (variável) de tempo de exposição (fui variando a Abertura entre f/5.6 e f/8), e ainda c) uma compensação manual de entre 2 a 3 stops a menos na luz, para evitar "queimaduras" (irreparáveis em edição) provocadas pelas explosões do fogo de artifício. A focagem, dado o cenário que tinha à frente, foi feita de modo automático, através de um ponto focal no visor coincidente com uma zona da Vila mais ou menos central. Tudo isto foi testado ANTES do início do espectáculo, fazendo uma série de disparos de teste e avaliando para os resultados.

8 - Escolha da objectiva. Não sendo possível determinar a extensão da paisagem que vai ficar ocupada pelo fogo de artifício antes de este começar, o ideal é jogar pelo seguro. Levar uma ou duas objectivas tele, que permitam regular a distância focal face à extensão do enquadramento, e deixar ainda alguns espaços laterais de folga para compensação (essenciais muitas vezes para a fase de edição para ajustar ângulos e a própria composição). Uma grande angular com zoom e outra com maior capacidade de extensão focal será o ideal. No meu caso, a objectiva que acabei por utilizar foi a 24-105mm, mas tinha a 16-35mm como alternativa.

9 - Editar a gosto - sendo que aqui também a escolha do registo em RAW no momento dos disparos é essencial, para permitir a maior amplitude de trabalho possível na fase de edição. São inúmeras as vantagens dos ficheiros RAW face a outros que já esteja processado e gravado em .JPG, em particular se as imagens captada envolverem zonas de "muita claridade" e/ou de "muita escuridão", como é o caso.

10 - Eis o porquê dos "2 a 4 segundos" para o Tempo de Exposição/Velocidade de Obturação: se optarmos por períodos mais curtos, não vamos conseguir acompanhar o arco total de "vida" de um projéctil, ou seja, os arrastos de luz ficarão incompletos, e se optarmos por períodos mais longos vamos correr o risco de sobrepor arrastos de luz de vários lançamentos consecutivos, criando indefinição e confusão visual na imagem. Imagine que deixava o sensor aberto 30 segundos... Quantos lançamentos de projécteis iriam ficar gravados no sensor uns sobre os outros, a ocupar as mesmas zonas no enquadramento?  E, ao contrário, o que sucederia se captássemos fotos com a duração de 1/500 segundos, tentando "congelar a imagem" durante um fogo de artifício? O resultado seriam pontos de luz, em vez de arrastos, ou seja, não veríamos fogo de artifício nenhum, mas apenas um punhado de pontos brilhantes na imagem.

27/04/18

Comemoração do 25 de Abril - Desfile Av. da Liberdade 2018

Registo fotográfico da marcha popular entre o Marquês de Pombal e o Rossio, nas comemorações da Revolução do 25 de Abril de 1974.

Desfile onde se juntaram povo e instituições, personalidades políticas e culturais, hinos populares e vozes de contestação, e onde se exibiu um vasto conjunto de mensagens e iconografia revolucionária, com simbologia nem sempre representativa da Revolução dos Cravos - coisa de extremos, garantidamente - entre pins com o rosto do sanguinário Lenine (estariam os alfinetes com o rosto de Thomas Jefferson esgotados?) e a maçã dentada na traseira dos iPhone.

Equipamento utilizado: Canon 6D + 24-105mm 1:4 L
Tratamento de edição em Adobe Photoshop Lightroom 5.6


(clique nas imagens para aumentar)



























27/02/17

Anoitecer no Miradouro do Moinho das Três Cruzes do Calhau

Resultados de uma deslocação recreativa com um amigo, ao final do dia, bem ao centro de Lisboa. Para tirar o pó à máquina. Sequência de registos separados entre si por minuntos.

Equipamento: Canon 6D + Canon 24-105 f/4 + Tripé
Tratamento de edição em Adobe Lightroom 5.6, a partir de imagens em RAW

(click para aumentar)






18/10/14

Simetrias Assimétricas

Duas variações de perspectiva sobre um mesmo espaço arquitectónico.

Confronto entre formas geométricas, sentidos de orientação de linhas e disposições no plano. Confronto ainda entre preto e branco. Algures no espaço intermédio: betão, ferro, vidro, plástico e linóleo.



Equipamento: Canon 6D + Samyang 14mm f/2.8
Tratamento de edição em Lightroom 5.6, a partir de uma mesma imagem em RAW

07/09/14

Sulcos - Lisboa - Harsh Light

 «A primeira vez que vi a cidade de Lisboa, pensei comigo, Esta terra é como uma madama que tem de ser engatada com muito jeito, Nada de pressas, Nada de deitar a mão antes do tempo, É preciso andar devagarinho, com o olho vivo, e não cheirar dos pés...» - in Os Verdes Anos, de Paulo Rocha

Trabalho de exposição/narração gráfica sobre a zona de comunhão entre a geometria urbana de traçado e rigor matemático e a ordem/desordem aleatória da natureza. Linhas, artérias, vectores, caminhos partilham um território sem fronteiras definidas - convivem numa paisagem orgânica eclética, em constante mutação, uma "selva de pedra". No ponto mais central desta teia nevrálgica, sulcos traçados e orientados pelo homem, com ajuda de maquinaria pesada, mas formados por terra, pó e calhaus, num esforço de imprevisível sustentação conjunta. No céu, as nuvens troçam do esforço humano construindo padrões repetitivos com aparente simplicidade. Um dia o homem quererá fazer delas também sua propriedade.






 




Equipamento utilizado: Canon 6D + Objectiva 24-105 1:4 L
Edição em Lightroom 5.2, a partir de ficheiros RAW

30/05/14

Sem solução à vista, mas com uma vista de fazer cair o queixo

The stone of the gate's two pillars had been badly broken and chipped away - by time and by vandals...
-
Philip Roth - Everyman


Para quem atravessa a Ponte 25 de Abril, sentido Sul-Norte, e enquanto vai rolando sobre o tabuleiro propriamente dito, já na plataforma descendente, o local avista-se ao longe, mesmo no topo da Serra de Monsanto, por entre as copas das árvores, um pouco à direita da torre de comunicações da PT. É um edifício invulgar, uma sentinela solitária algo anacrónica e imponente, e embora seja fácil não se dar por ele no meio da imensidão de distracções visuais e das densas texturas de vegetação que ornamentam a encosta litoral da serra, uma vez localizado o difícil é desviar olhos. Depois vamo-nos aproximando mais da cidade, a linha do horizonte eleva-se, e o edifício desaparece do nosso ângulo de visão. Não desaparece contudo da memória, nem da curiosidade de saber o que é.

O Restaurante Panorâmico de Monsanto (que também já foi "discoteca, bingo, escritório de uma empresa de filmagens e armazém de materiais de construção") encontra-se há largos anos votado ao abandono, apresentando marcas agudas de vandalismo, degradação e ruína. Apesar de várias tentativas por parte da gestão camarária para encontrar uma solução viável que permita recuperar/aproveitar o espaço, o montante monetário envolvido é proibitivo, e o tempo vai passando sem que nada fique resolvido. Nesta notícia do Diário de Notícias, datada de 2008, fala-se nuns astronómicos "20 milhões de euros para recuperar o espaço", e para quem já tiver tido a oportunidade de visitar o local esta verba nem parece assim tão avultada (i.e., suficiente), tendo em conta a complexidade da planta, o espaço físico ocupado (7000m²) e o seu estado actual de (des)conservação. Trata-se de um empreendimento gargantuesco. A julgar pelo que se encontra escrito aí pela net, ideias não faltam, mas o dinheiro e a iniciativa é que teimam em não aparecer. Recentemente, no mês passado, o Partido Ecologista "Os Verdes" apresentou uma recomendação à Assembleia Municipal de Lisboa, com o sentido de promover a viabilização do espaço. É meritório que não deixem o assunto cair no esquecimento, mas o que o texto não refere é que alternativas e caminhos em concreto propõe o partido para esse efeito. Há também um blogue do Movimento Fórum Cidadania Lisboa com uma série de artigos publicados, espaçados no tempo, a partir de 2008, sobre esta questão.

Um conjunto de características distinguem o restaurante de qualquer outro espaço urbano em ruínas, tornando-o magneticamente apetecível a adeptos das temáticas «urban decay»: a mais evidente destas características será a singularidade e beleza do projecto arquitectónico (da autoria do arquitecto Chaves da Costa), a que se associa de imediato uma certa megalomania e luxo conceptuais, bem como um contexto sócio-político salazarista que é impossível não vir à memória por arrasto (o restaurante foi inaugurado em 1968). Eis aqui alguns registos da época. Depois há a vista para a cidade. Um panorama deslumbrante a que o fotógrafo Rui Gaiola chamou, com autoridade e razão, de "a melhor vista que Lisboa pode ter." Não só é a melhor, como também a que alcança mais longe, a mais ampla e a mais variada — permite uma volta aí de uns 270º, só interrompida pelas instalações militares da força-aérea, situadas a norte. Esqueçam todos os miradouros espalhados pela cidade, Castelo de S. Jorge incluído, porque a imponência deste spot faz eclipsar qualquer experiência anterior de contemplação paisagística sobre Lisboa. É ver para crer, e é ver para querer voltar para mais. Por último, a arte. Por incrível que pareça, há três ou quatro peças de arte dentro do edifício — património com valor — que permaneceram miraculosamente intocadas pelo vandalismo: um painel de relevos colorido que cobre uma vasta parede (Figuras e cenas da cidade de Lisboa, 1965, da autoria de Manuela Madureira) e dois grandes painéis de azulejos (autoria de Manuela Ribeiro Soares) instalados no reduto panorâmico mais elevado, a "torre de vigia" que parece simular a ponte de comando de um navio, e que encima o edifício. Infelizmente, outras peças de relevo foram destruídas por graffitis homicidas, caso de uma pintura mural de 50m², de Luis Dourdil, situada no átrio de entrada principal do edifício, e da qual também não se distinguem já bem as cores na porção que ainda subsiste. Segundo consta, haverão também trabalhos do artista plástico Querubim Lapa, mas a inexistência de traços identificativos impedem-me de perceber quais são e onde se encontram.

Esta "promiscuidade" contextual e cultural intensa, assim como o espectáculo da degradação e do declínio, a agonia melancólica e solitária de um edifício em lenta decomposição, tornam o espaço num local incontornável para os apreciadores de fotografia que se interessem por estes temas — pretextos mais do que suficientes para explorar uma variedade de técnicas fotográficas diferentes, em contextos situacionais distintos (embora complementares pela partilha espacial), e também oportunidade para experimentar vários tipos de objectivas diversas e mais os estilos de edição que vêm sempre por arrasto nestas situações. As seguintes fotografias foram obtidas com uma câmara Canon 40D, em conjunto com as objectivas: Canon 10-22mm, Tamron 17-55mm e Samyang 8mm fisheye. Foi utilizado um tripé em algumas situações.


(click para aumentar)

























Uma última nota para quem se sentir tentado a visitar o local: como em todos os casos de edifícios em estado de abandono e intensa degradação, é necessário ter presentes alguns cuidados, bem como a noção de que há um factor de risco associado a uma incursão por muitos dos seus recantos. No caso deste restaurante, os perigos são particularmente elevados: há desníveis significativos entre os pisos e as escadarias de acesso, dois poços de elevador sem qualquer porta a proteger de uma eventual queda, portas e aberturas na parede que dão literalmente para o "nada" (com quedas a chegarem a 7 andares), várias escadarias sem corrimão, o chão está coberto de cacos, estilhaços e extensas lâminas de vidro, bem como de restos de materiais de construção abandonados, peças de metal enferrujadas e retorcidas, lixo e detritos, os tectos têm todos pedaços da estrutura e do reboco a cair, alguns destes presos por meras tiras de papel de parede, etc, etc, etc. Uma pequena distração pode ser fatal. Aconselha-se calçado com sola grossa e uma lanterna com capacidade de longa duração, que pode dar jeito mesmo durante o dia, em locais interiores menos permeáveis a luz (dá jeito, em todo o caso, para explorar os pisos inferiores — agradece-se a quem descobrir a combinação do cofre...).