Mostrar mensagens com a etiqueta Cinema. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Cinema. Mostrar todas as mensagens

21/05/23

Cidades dos Anjos ("What makes us Human", parte II)

Filmados com 5 anos de intervalo, Blade Runner (Ridley Scott - 1982) e Der Himmel über Berlin (Wim Wenders - 1987) são obras muito diferentes, mas que partilham, no entanto, de um semelhança "conceptual" importante: são povoadas por anjos que desejam ser humanos. Desejam uma liberdade que a condição existencial imposta à "nascença" lhes nega.

Os dois filmes partilham também de uma relação quase orgânica, vital, que se estabelece entre as personagens e a cidade por onde se movem. No primeiro caso uma Los Angeles (precisamente a "cidade dos anjos") futurista, e no outro caso Berlin, dois anos antes da queda do muro.

No início dos filmes, anjos observam a cidade a partir do alto...

 







07/12/22

« Mirror, mirror on the wall...

 ...Who's the grimmest of them all? »


M - 1931


Joker - 2019


Apesar da semelhança entre as imagens (e entre a doença mental das personagens em questão---coincidências?), são mais as diferenças que separam estes dois "filmes-sociais" do que as similaridades que os aproximam. 

A sociedade/civilização no filme de Lang está fundada na ordem, na harmonia entre as partes, e num sistema de "equilíbrios e compensações" que é em último caso eficaz (mesmo que bastante ineficiente).

O filme de Todd Phillips por seu lado aposta as suas fichas na incapacidade institucional em curar a corrupção e as feridas do "sistema", e na emergência do caos urbano e do motim como resultados inevitáveis (desejáveis?) da decadência social.

O filme de Lang denuncia o "vigilantismo" e a tomada da justiça pelas mãos populares, enquanto o filme de Phillips parece abraçar a ideia.

Ainda assim, teria sido interessante perceber se Lang tornaria a filmar "o mesmo filme", e manteria a mesma "fé" nas estruturas sociais, uns anos mais tarde, no contexto em que Hitler e o Partido Nazi haviam já tomado as rédeas do poder.

29/09/20

The Stuff Dreams are Made Of

 

The Maltese Falcon - Relíquia Macabra - 1941
 
Laura - 1944
 

26/02/20

Os homens não choram! (... acerca de "1917" e de "Paths of Glory" - parte II)

Homem que é homem não chora, e filme que é filme não perde tempo com pieguices sentimentalistas.

Mas em Paths of Glory é precisamente isso que sucede no final. A esta distância, olhando para a obra de Kubrick e considerando o quão uniformemente fria e calculista se apresenta, é irónico observar uma manifestação tão aberta e humanista, sem máscaras ou artifícios estilísticos pelo meio. E a intensidade com que nos é mostrada!

Depois de nos levar pela mão num instrutivo passeio por aquilo que de mais abjecto e repugnante há no comportamento humano, depois de nos assegurar, para lá de qualquer dúvida, que por mais que nos esforcemos, por mais sólidos e racionais que sejam os argumentos utilizados, por mais explícitos que sejam os exemplos disponíveis, mesmo à nossa frente, depois de nos explicar por A mais B que não conseguiremos nunca contrariar o egoísmo, a maldade e a tirania institucionalizados (uma marca no seu cinema), Kubrick afasta ligeiramente as nuvens negras para o lado, ensaia uma inusitada inflexão na trajectória pessimista do filme, e permite que um raio de sol nos aqueça por instantes a alma. Há esperança para a humanidade, e não é assim tão ténue quanto isso - essa também é uma das mensagens de Paths of Glory. Somos capazes do pior, mas também do melhor, mesmo em condições extremas, mesmo quando enterrados até ao pescoço num imundo lamaçal.

A determinada altura em 1917, entre duas sequências mais tensas de aflição para o protagonista, sucede um breve período de acalmia. O soldado, à beira de sucumbir de exaustão, deambula pelo mato e ouve à distância alguém a cantar. Um regimento amigo de tropas reúne-se no chão à volta de um intérprete, antes de partir para uma ofensiva. O soldado deixa-se cair junto de uma árvore e a câmara liberta-se por momentos da sua presença, dando uma curta volta por entre grupo. Tão curto é o "giro", e tanta é a pressa do realizador para voltar para junto do protagonista, que mal reparamos nas expressões dos poucos soldados que aparecem no enquadramento. Mendes revela-se menos interessado na expressão humana e mais em tornar a pegar na intensidade do fio narrativo, para não deixar esfriar a componente imediatista de tensão. Como em relação a tantas outras vertentes no filme, o tema, a canção, a voz do intérprete e o seu impacto junto das tropas quedam-se para um segundo plano praticamente irrelevante e acabam por não ser explorados o suficiente para formar massa crítica emocional.

Por se tratar de uma canção que reune a atenção das tropas à sua volta, esta sequência faz-nos recordar esses 5 minutos finais de luz em Paths of Glory. Não quero entrar em descrições desnecessárias (até porque a expressão de Kirk Douglas, antes e depois da sequência, nos conta tudo o que precisamos de saber), mas vou deixar o mais importante: as imagens dos rostos dos soldados no momento em que, ao som da voz da jovem alemã (um "troféu de guerra" à espera de ser sexualmente explorado), o elemento comum da solidariedade e compreensão se sobrepõe à brutalização imposta pela guerra. O momento em que as lágrimas se tornam protagonistas.






















25/02/20

O "último refúgio de um cobarde" (... acerca de "1917" e "Paths of Glory" - parte I)

Talvez seja injusto entrar em comparações pormenorizadas entre o mais recente filme de Sam Mendes, o aclamado 1917, e algumas outras obras de guerra, e sobre a guerra, com raízes já bem firmes na história do Cinema, mas a verdade é que a ambição evidente de Mendes, por um lado, e as matrizes que pretende homenagear, por outro, tornam quase à partida essas comparações inevitáveis. 

Um dos modelos mais facilmente reconhecíveis em 1917 é o filme Paths of Glory - Horizontes de Glória, de Stanley Kubrick, realizado em 1957 - reconhecível logo a partir do modo como a câmara é "encaixada" dentro das trincheiras e se move e segue as personagens de um lado para o outro. São aliás reconhecidos o pioneirismo obstinado na abordagem por parte de Kubrick em Paths of Glory, e o espantoso trabalho de Mendes e do seu "cinematógrafo" de serviço, Roger Deakins, na construção de um fluxo narrativo contínuo e ininterrupto em 1917 - o seu maior trunfo, por sinal.

Só que enquanto 1917 é um gigante com pés de barro, imersivo, realista e portentoso no capítulo técnico mas sofrível na substância (terá alguma?), o filme de Kubrick é uma imensa parábola social, amargo e irónico, carregado de situações absurdas e diálogos mordazes, que denuncia a cobardia, a estupidez humana e a corrupção moral que se encavalitam e escudam nas fontes de poder, em concreto nas hierarquias da patente militar.

Um desses diálogos - um que vale a pena recordar vezes sem conta porque está sempre actual - versa assim: