13/04/14

Grunge is dead!... or is it?

 Eddie Vedder na capa da revista TIME, edição americana de 25 de Outubro de 1993

O Grunge não tem nos dias de hoje expressão cultural ou musical significativa em lado nenhum — é  um género marginal, ultrapassado e demodé face às tendências musicais contemporâneas —  mas os efeitos da explosão que abalou Seattle em finais do século passado, na transição dos anos 80 para os 90, continuam a fazer-se sentir. A música de umas quantas bandas mainstream que sobreviveram ao passar dos anos, e que resistem ainda, cada uma à sua maneira, continua a justificar o que se fale de Grunge hoje em dia, mesmo que o mundo tenha mudado irrevogavelmente nestas duas décadas, e ainda que o termo continue a ser tão cómodo de usar como ilusivo nas suas delimitações orgânicas. Digamos que é, ou foi relativamente simples (para os media, para as editoras discográficas, para um público adolescente sedento de ícones...) definir umas quantas características comuns, quer a nível de sonoridade musical (a mistura entre o legado do punk, o underground e o heavy-metal), quer a nível de temáticas abordadas (a desilusão com o sentido da vida manifestada através da raiva e do negrume, por exemplo), e agregar em seu redor uma série de talentos emergentes que surgiram, coincidentemente, por volta da mesma altura num mesmo espaço geográfico: Seattle — mesmo considerando os outsiders que se viram, propositadamente ou não, associados ao movimento (os Stone Temple Pilots, por exemplo, que nos primeiros anos soavam a uma mistura entre Alice in Chains e Pearl Jam, mas que não eram originários de Seattle) ou outros que de alguma forma tenham ficado mais expostos por conta dele (os Sonic Youth e os Smashing Pumpkins). É muito mais esta coincidência espacial e temporal que une e agrega estas bandas num mesmo espaço conceptual imaginário(!) do que propriamente as suas semelhanças a nível musical, já que há evidentes disparidades entre o som de cada uma. Seattle transformou-se durante uns anos na Meca da cena musical, local de culto e de peregrinação onde centenas ou milhares de bandas wannabe visitantes viram sonhos de fama e glória caírem impiedosamente por terra. A "história do Grunge de Seattle" está de resto extensamente explorada e documentada em infindáveis artigos de imprensa publicados desde essa altura; penso que valerá a pena destacar, ainda assim, o esclarecedor documentário Hype!, realizado por Doug Pray em 1996, bem como as duas incursões de Cameron Crowe, na senda da definição vital do movimento a partir do seu interior, uma com o filme Singles (1992) e outra com o documentário Pearl Jam Twenty (2011).

Dave Grohl, Kurt Cobain e Krist Novoselic, os Nirvana

Passaram vinte anos desde a morte de Kurt Cobain (suicidou-se a 5 de Abril de 1994), líder e vocalista dos Nirvana, indiscutivelmente a face mais mediática do Grunge. Fora as opiniões nem sempre concordantes sobre a capacidade, talento e génio criador de Cobain, é consensual que o álbum Nevermind (1991) e mais o mítico tema Smells Like Teen Spirit, o «hino do Grunge», constituíram os responsáveis maiores pela ascendência meteórica e popularização do género um pouco por todo o mundo, sendo que, por esses dias, já um intenso "burburinho" predatório de aproveitamento comercial pairava sobre Seattle, virtude da emergência do tal conjunto de talentos musicais que começavam a afirmar-se perante audiências mais vastas, fora do circuito fechado da cidade. Bandas como os Mudhoney (ramificação dos Green River, de onde também descenderiam os Mother Love Bone e mais tarde os Pearl Jam), os Soundgarden, os Alice in Chains e os Screaming Trees viriam a definir o estilo musical proeminente nos E.U.A. na primeira metade dos anos 90. A partir de então, quase tão depressa como começou, o Grunge enquanto conjunto plural, musical e cultural, evaporou-se quase sem deixar rasto, como se de uma moda passageira se tratasse (e de certa forma foi isso mesmo que sucedeu, um termo cunhado pelos media que degenerou numa mo-e-da). O legado musical, contudo, permaneceu, bem como a persistência de algumas bandas em serem fiéis às suas raízes, apesar dos seus tempos de juventude terem terminado há muito e das questões prementes que acompanharm esses momentos iniciáticos terem porventura cedido lugar a outras frustrações, associadas a etapas e incertezas mais tardias da vida («Teenage angst has paid off well / Now I'm bored and old...»).

Será que o que resta hoje dia dessas bandas merece ser destacado sem que necessitemos de mencionar a data da morte de Cobain como pretexto? Sim. Mais nalguns casos do que noutros, como seria espectável, mas não deixa de haver uma certa reminiscência nostálgica associada aos saudosos tempos em que nada mais interessava no panorama musical, e que atinge agora, por arrasto, mesmo as situações menos entusiasmantes.

Os Alice in Chains perderam grande parte da chama e do poder criativo no momento em que o vocalista Lane Staley morreu, em 2002, numa altura em que já não havia propriamente uma banda — o último álbum de originais datava de 1995 e o último concerto em público digno de nota sucedera com o Unplugged, em 1996. Em 2006, quase dez anos depois da última aparição, a banda começou novamente a dar sinais de vida, com William DuVall a ocupar lugar de Staley como vocalista. E se neste papel DuVall está como peixe na água, com um timbre que ao mesmo tempo faz recordar o de Staley e se enquadra bem no estilo musical pesado e negro da banda, a energia criativa do grupo parece ter desaparecido com a morte de Staley, uma responsabilidade que Jerry Cantrell não consegue preencher a sós, por mais habilidoso que seja na guitarra. Foram lançados dois albuns de originais com este novo alinhamento, Black Gives Way to Blue (2009) e The Devil Put Dinosaurs Here (2013) mas tanto um como outro são pálidas amostras daquilo que um dia foram os Chains (dos tempos de Facelift, 1990 e Dirt, 1992), apresentando temas que pouco se distinguem uns dos outros e em que a raiva sonora incontida de outros tempos dá lugar a um ambiente pesado algo anémico que parece resultar apenas do conformismo em definir um patamar expressivo. Ainda assim, valem a pena uma audição atenta, mais no caso do último álbum.

Hollow - Alice in Chains - 2013

Os Pearl Jam, que desde o desaparecimento dos Nirvana são a banda de Seattle com maior sucesso e reconhecimento comercial junto do público, apesar de terem passado por vários períodos atribulados de redefinição da sua essência sonora, e de já pouco restar da ambiência inicial definida em Ten (1991), têm conseguido comercializar álbuns de originais com alguma constância e larga aceitação. A última dessas propostas, Lightning Bolt, é bem recente, data de finais de 2013, e conta com um tema que por esta altura já terá queimado os timpanos aos ouvintes de rádio de tantas vezes que passa: a melíflua balada Sirens. Os Pearl Jam actuais são uma banda fortemente descaracterizada, em que a ligação entre os instrumentos, apesar de enérgica, se tornou numa amálgama indistinta, rotineira pelo hábito de anos a tocar em conjunto, e que está de certa forma resignada e amparada num patamar comercial de destaque que foi conquistando ao longo do tempo — em suma: sem identidade. O seu último marco digno de registo sucedeu em 1998, com Yield; a partir de então, cada novo trabalho tem-se revelado uma desilusão, sempre com um ou dois temas que merecem algum destaque, mas com os restante a servirem para encher o chouriço. Apesar de tudo, mais pelo afecto nostálgico que nutro por esses primeiros tempos de actividade, e que teima em não me abandonar, lá os vou ouvindo com alguma expectativa e desejo de conciliação.

Mind Your Manners - Pearl Jam - 2013

Os Screaming Trees, uma das bandas que ajudaram a definir e consolidar as raízes do Grunge em Seattle, formada em 1985, desapareceram de vez em 2000, por opção própria do membros, e por aparentemente terem chegado ao limite das suas capacidades enquanto grupo criativo com saída comercial. O último álbum que lançaram "em vida", o refinado, harmonioso e instrumentalmente complexo Dust, data de 1996. Mais recentemente, em 2011, e sem que a banda se tenha reunido para a ocasião, foi lançado o trabalho que haviam estado a preparar em 1998 e 1999, e que não chegou nessa altura a ver a luz do dia: Last Words: The Final Recordings. Contando com a voz cavernosa e ressonante de Mark Lanegan, um disco "novo" dos Trees constitui sempre uma proposta musical que não se recusa, ainda que não haja desta vez um tema que se destaque de forma mais evidente ou um grande hit comercial, como sucedeu nos dois álbuns anteriores — algo que em todo caso pode ser interpretado pela positiva.

Crawlspace - Screaming Trees - 199?

Mesmo que não tivessem feito mais nada ao longo da sua carreira, os Soundgarden ficariam para a história por conta de um dos melhores álbuns de heavy-metal dos anos 90, uma obra-prima que dá pelo nome de Superunknown (1994), e que merece figurar entre os grandes discos da era Grunge, ao lado de In Utero (1993) dos Nirvana e de Ten (1991) dos Pearl Jam (esqueçam por momentos o pop pós-apocalíptico e radio-friendly de Black Hole Sun e ouçam os outros temas do álbum!). Influenciados por gigantes dos seventies como os Led Zeppelin e os Black Sabbath, os Soundgarden foram a banda de Seattle que melhor souberam tirar proveito da pujança sonora de riffs pesados e agressivos, conjugado-os com ambiências harmónicas e melodiosas resultantes de um certo experimentalismo psicadélico, contando para isso com o rugido vocal autoritário de Chris Cornell e com a inventividade criativa de Kim Thayil na guitarra. Separaram-se em 1997, alegando diferenças criativas, depois do álbum Down on the Upside (1996) ter ficado longe da genialidade de Superunknown. Cornell prosseguiu uma carreira a solo e chegou a juntar-se a ex-membros dos Rage Against the Machine para formarem os Audioslave, e Matt Cameron, o baterista, foi "adoptado" pelos Pearl Jam, numa das várias vezes em que se viram sem um ocupante para o cargo (Cameron faz neste momento parte das duas bandas...). Os Soundgarden  tornaram a reunir-se em 2010. O seu mais recente trabalho, King Animal, data de finais de 2012, e se por um lado fica aquém de Superunknown ou mesmo de Badmotorfinger (1991), representa por outro um regresso à boa forma que os caracterizou no início dos anos 90, e a um espaço musical distinto, fora do seu tempo, que não tem outros intérpretes nos dias de hoje.

 Bones of Birds - Soundgarden - 2012

Deixei o melhor para o fim: o mais recente disco dos Mudhoney, um grupo que permaneceu teimosamente irredutível nos seus princípios musicais ao longo de mais de 25 anos de actividade, iguais a si próprios, iguais ao que foram nos momentos iniciais da sua formação, uma banda que sempre rejeitou os holofotes da fama, não fez concessões perante nada nem ninguém, e que representa a vertente mais crua, niilista e corrosiva do Grunge, próxima talvez daquilo que será a vocalização prática da significância do termo, um registo que terá influenciado Cobain no estabelecimento da identidade musical de Bleach (1989), o álbum de estreia dos Nirvana. É de resto bastante notória a aproximação sonora entre as duas bandas nesse tempo que antecedeu Nevermind. Não será também por acaso que é atribuída a Mark Arm, o vocalista-voz-de-ratazana do conjunto, a primeira instância mediática em que terá sido usada a palavra Grunge. Os Mudhoney conseguiram manter uma invulgar homogeneidade e coerência no output instrumental e na qualidade estética da música que produziram ao longo de toda a carreira, atingindo no ano passado um inesperado pico criativo com o nono álbum de originais (o sexto sob a égide da lendária Sub Pop): Vanishing Point. Parece que os anos não passaram por eles, dada a energia corrosiva irónica presente nos temas (... I Like it Small, Douchebags on Parade e Sing this Song of Joy... ), que larga impunemente napalm sobre a face comercial mais exposta de Seattle, e que faz em certos momentos lembrar a força electrizante e raivosa do punk dos Stooges. Pop isto não é...

The Final Course - Mudhoney - 2013

A fechar, deixo um pequeno concerto dos Mudhoney com a  baía de Seattle como pano de fundo, que em cerca de meia-hora faz uma súmula coerente da identidade inconformista do grupo: aqui. Começa com Touch Me I'm Sick, como não podia deixar de ser.

04/04/14

E a Valsa Continua, cinquenta anos depois

Eis um extraordinário "encontro cultural" que não se vê/ouve todos os dias...



... talvez para apreciar serenamente, enquanto se saboreiam umas iscas, acompanhadas de favas e Chianti...

13/03/14

Ultra Grande Angular

Uma das vantagens oferecidas pelas máquinas fotográficas DSLR (Digital Single-Lens Reflex) é a sua capacidade para acoplarem diferentes objectivas ao seu corpo, permitindo desta forma alargar o leque de possibilidades técnicas e artísticas do fotógrafo.

As objectivas Ultra Grande Angular - também conhecidas em português pelo acrónimo UGA - possibilitam captar ângulos de visão bastante mais abrangentes do que as objectivas que por norma acompanham os kits das DSLR, mas exigem por sua vez uma atenção e um rigor acrescidos no seu uso, uma vez que têm por particularidade a distorção física do real. Esta distorção manifesta-se de várias maneiras, consoante a distância focal a que a lente está regulada (o seu valor de "zoom") e os ângulos escolhidos de ponto de vista  perante o cenário. Por exemplo, os elementos que estão mais distantes em relação à máquina poderão aparerer nas fotografias ainda mais distantes; os elementos na periferia do enquadramento poderão aparecer "esticados"; e a inclinação ou rotação do ponto de vista, para cima ou para baixo, para a esquerda ou direita, poderá tornar as linhas verticais e horizontais do cenário invulgarmente extensas, formando arestas a partir de diagonais estranha, que os nossos olhos não vislumbram na realidade. Estas características podem e devem ser aproveitadas de forma criativa, fazendo surgir realidades fantasiosas (e fantásticas) onde antes não existiam.

Os seguintes exemplos foram captados nas instalações da livraria Ler Devagar, em Lisboa, Lx Factory, através de uma Canon 40D equipada com objectivas Ultra Grande Angular. No primeiro caso foi utilizada uma objectiva Canon 10-22mm, e no segundo uma Samyang 8mm Fisheye (e daí a distorção esferóide adicional que altera as linhas rectas, de forma concêntrica, a partir do centro da imagem). Para além da passagem a preto-e-branco, e uma vez que nenhuma fotografia sai assim de uma 40D, a edição teve por objectivo tornar o contraste mais intenso - aproximar mais as zonas de claridade do branco absoluto, e as de sombras e escuridão do preto absoluto, deixando visível menos "zona cinzenta intermédia". Porque a verdadeira cor dos livros é "extraída", através do processo da sua leitura, a partir de linhas a preto-e-branco...





05/03/14

Por um canudo


«You see, anything indirect is stronger, in many cases at least, because you leave it or you hand it over to the imagination of your audience. And I’ve always been trusting my audience to have imagination, otherwise they should stay out of the cinema.» - Douglas Sirk


Aviso: o seguinte texto contém spoilers/revelações sobre o enredo de O Filme Lego.

É sabido de fonte segura que as boas intenções fazem fila à porta inferno, aguardando que os arautos de mefistófeles venham indicar a câmara de sofrimento que lhes está reservada, a fim de suportarem as tormentas da danação eterna. Apenas assim de compreende como esta película de animação para "crianças e adultos", didática até ao limite do moralismo bem comportado e displicente, conseguiu chegar às salas de cinema aqui pelo piso zero. Entende-se que hoje em dia é comercialmente arriscado colocar nas salas filmes que obriguem a pensar - ou mesmo que deem tempo suficiente ao espectador para que este o possa fazer... por sua iniciativa. O mundo não está para aí virado: as rotações cada vez mais rápidas da vida moderna geram preguiça, potenciam que as pessoas agradeçam(!) que pensem por elas nos tempo de lazer - desligar o raciocínio por uns instantes é bom para recuperar os rácios de actividade "normais" nos centros de decisão. O mais recente filme da Lego destaca-se precisamente neste capítulo: o da imbecilização cúmplice, voluntária e agradecida por parte da plateia.

Chega até aí por conta de um enredo com a espessura intelectual de uma folha papel vegetal, plagiando e pilhando daqui e dali, e remendado os retalhos com duas tiras de fita-cola (ironia das ironias, um enredo que apregoa aos sete ventos a importância da criatividade e do "livre pensamento" - é essa, aliás, a sua principal mensagem mobilizadora); por conta também da repetição ad-nauseum de referências cinéfilas cool mais do que estafadas (todas de identificação imediata - não para entreter as crianças, que não as apanhariam de qualquer maneira, mas para os pais terem qualquer coisa a que se agarrar: o conforto amparado nalguns grandes sucessos do cinema de Hollywood, como Matrix - saga onde O Filme Lego vai buscar o fio condutor da distopiazita tecnológica e do zé ninguém com falta de auto-estima que se vai tornar no "escolhido", e consequentemente salvar do mundo -, Star Wars, Terminator, The Lord of the Rings, Flash Gordon, etc, etc, a lista é longa); por conta ainda da aceleração da montagem até à velocidade warp estonteante em que nada se distingue no ecrã - um pouco à laia da "desenvoltura artística" a que Michael Bay nos habituou nas sequências de acção dos mais recentes capítulos da saga Transformers: montanhas, resmas, paletes de partícula, peças, componentes e detritos, todos muito coloridos e texturados, a espalharem-se pelo ecrã em todas as direcções, filmados por vinte câmaras distribuidas em vinte pontos de vista diferentes, para que no fim caibam vinte planos "na esgalha" em dois segundos de fita editada. Não importa tornar nítido o que está a suceder aos elementos dentro das coreografias, não importa que não se consiga distinguir de que trata em concreto a acção, importa antes cativar a plateia berrando-lhe aos ouvidos, enchendo-lhe o campo de visão com movimentos vertiginosos e cores garridas. E a Lego - marca, brinquedo, conceito, universo -, assente que está numa estrutura feita de pequenas peças interactivas, fornece o tipo de dimensão perfeita onde este crime pode ser impunemente praticado: o assassinato consentido e condescendente do cérebro do espectador - estamos no território do vale tudo a céu aberto, em que a narrativa metaforiza a bel-prazer as brincadeiras das crianças no plano real, ou seja, sempre que encontrem um beco sem saída, toca de inventar um plano de fuga no momento, de construir uma geringonça que permita escapar para outro mundo (uma mota num segundo, um submarino em dois, uma nave espacial em três), toca de fazer aparecer do nada mais personagens para ajudar à briga, toca de misturar as peças do Star Wars com as dos heróis da DC, Batman, Mulher Maravilha, e por aí fora. A intenção é boa no papel, mas esfrangalha qualquer intenção de dotar a narrativa de uma lógica, tornando pelo caminho o mecanismo Deus Ex Machina numa norma rotineira, retirando-lhe o efeito surpresa do in-extremis vindo do nada que lhe dá o nome. Algo que não sucedia, por exemplo, em Força Ralph!, obra que também misturava vários universos e personagens distintos de forma promíscua, mas em que os factos narrativos obedeciam quer à lógica de cada universo, quer à explicitação faseada das regras que regiam cada uma das personagens dentro desses contextos - nada era forçado ou atirado ao acaso seguindo a fórmula da "fuga para a frente".

É (ou era) também boa a intenção de estabelecer um paralelo entre a personagem de Emmet, o boneco que personifica "o escolhido" no mundo lego, e a personagem da criança que no mundo real brinca com ele, atribuindo depois ao seu Pai a equivalência da figura do ditador tirânico "Lorde Negócios", que pretende colar - com uma bisnaga de cola gigante - as peças todas no mundo imaginário. Este conflito entre pai e filho gira em torno dos objectivos de cada um - enquanto que o Pai/Lorde Negócios tenciona fazer do mundo lego um lugar estático, a maquete de uma cidade que não serve para brincar, seguindo o manual de construção de cada peça à risca, e deixando depois os resultados inalterados/colados perpetuamente, Emmet/filho pretende libertar-se das amarras e usar as peças misturando-as, destruindo para construir diferente, seguindo o impulso e a criatividade do momento, ao sabor das aventuras que vai imaginando (em confronto, basicamente, estão as duas formas de brincar com o Lego na vida real). O problema é a abordagem ao assunto, e surge aqui de novo a questão da imbecilização consentida do espectador, devido neste caso à infantilização patética da figura do pai, e que, para além dessa faceta enjeitada, muda de atitude/filosofia em menos de um fósforo (para que a mensagem seja tão explícita e fácil de apreender quanto possível, suponho). Um problema que de resto não é exclusivo deste filme (basta ligar o canal Disney para apanhar uma sucessão de séries adolescentes que fazem das figuras paternas idiotas bem humorados). Engula quem quiser. Vou apenas mencionar um nome para que não se invoquem os argumentos condescendentes do "filme de família", da necessária mensagem moral conciliadora, e da eventual falta de percepção das crianças para assuntos mais "adultos": Hayao Miyazaki. Quão infinitamente distantes ficam as suas obras de animação "para a família" deste tipo de fast-food reciclada e requentada na caçarola Hollywood - e sem abdicarem em momento algum de uma forte mensagem moral.

Para além das mazelas provocadas na vista, é penoso ver um punhado de boas ideias serem tão prontamente despejadas no lixo por falta de sensibilidade e criatividade para as aproveitar, ainda para mais quando são propagandeadas com a chancela da Lego, uma empresa da velha guarda que soube adaptar-se às mudanças tecnológicas modernas mantendo o seu brinquedo inalterado - a mais valia que por si só vai puxar para o cinema os adultos ávidos por recordarem a magia nostálgica desses momentos de infância. Debalde.

03/03/14

O diabo de andar com coisas cá dentro

«– Para sair no próximo número do jornal, se puder ser. Pago o que for preciso.
O Medeiros desdobrou o papel, desfez-lhe os vincos um a um com a unha enorme do polegar, a unha da viola, e pôs-se a ler. Daí a nada, erguia os olhos assombrado:
– E quer o senhor que eu lhe estampe uma coisa destas na Comarca?
O outro baixou o rosto inexpressivo:
– Exactamente.
Afastou a papelada da secretária para os lados como se lhe faltasse o ar, afeiçoou melhor os óculos ao nariz afilado, e na esperança de ter confundido as coisas começou a ler o documento outra vez. Mas não. Ali estava de facto exarada a tinta verde, numa caligrafia de mão pouco segura, a confissão pasmosa:

Eu, Álvaro Rodrigues Silvestre, comerciante e lavrador no Montouro, freguesia de S. Caetano, concelho de Corgos, juro por minha honra que tenho passado a vida a roubar os homens na terra e a Deus no céu, porque até quando fui mordomo da Senhora do Montouro sobrou um milho das esmolas dos festeiros que despejei nas minhas tulhas.
Para alguma salvaguarda juro também que foi a instigações de D. Maria dos Prazeres Pessoa de Alva Sancho Silvestre, minha mulher, que andei de roubo em roubo, ao balcão, nas feiras, na soldada dos trabalhadores e na legítima de meu irmão Leopoldino, de quem sou procurador, vendendo-lhe os pinhais sem conhecimento do próprio, e agora aí vem ele de África para minha vergonha, que lhe não posso dar contas fiéis.
A remissão começa por esta confissão ao mundo. Pelo Padre, pelo Filho, pelo Espírito Santo, seja eu perdoado e por quem mais mo puder fazer.

Saiu da segunda leitura como da primeira. De boca aberta. Que um sujeito arredondasse um tanto os preços de balcão, percebia; que descesse a extorquir uns alqueires de milho aos sobejos dum santo, percebia também; que enfim, dando o real valor a uma procuração, vendesse meia dúzia de pinhais alheios, porque é que não havia de perceber se as tentações, com mil demónios, são tentações para isso mesmo? Mas lá vir confessá-lo em público, na primeira página dum jornal, francamente, entender semelhante coisa era para o Medeiros como teimar com a cabeça numa aresta de granito.
Encarou de novo o rosto gordo do lavrador do Montouro. Feições paradas, sonolentas. Havia porém um ar de seriedade naqueles olhos pouco ágeis, na linha branda da boca, no beiço levemente caído, na cinza das têmporas, que impedia o jornalista de concluir no íntimo, decisivamente: é um imbecil; e contudo seria difícil avaliar o caso de outro ângulo; claro que não ia imprimir a declaração sem mais nem menos: a coisa tem a sua gravidade, envolve terceiros, o homem é capaz de ser de facto parvo e pode a família aparecer-me depois com exigências, desmentidos, trapalhadas:
– Calculo que tenciona fazer um acto público de contrição?
– Tenciono. Na primeira página, letra gorda, se for possível.
– E pode saber-se porquê?
Ajeitou-se no cadeirão. Tinha pousado o chapéu nos joelhos e afagava-o com os dedos brancos, grossos:
– É preciso ter em dia as contas com Deus e com os homens. Sobretudo com Deus.
– Claro, é preciso ter isso em ordem. E depois?
– Depois é o diabo andar com estas coisas cá dentro. A pesar, a moer.»

In Uma Abelha na Chuva - Carlos de Oliveira - 1953

18/02/14

Hey STELLAAAAAA ...


Lágrimas de crocodilo - Marlon Brando como Stanley Kowalski, num dos muitos momentos de génio em A Streetcar Named Desire - Um Eléctrico Chamado Desejo, a peça de Tennessen Williams adaptada ao cinema por Elia Kazan, em 1951. E Stella descerá então até ele, transfixa, para arrefecer a chama libidinosa que arde em ambos ...

16/02/14

A Balada de Cardoso Pires



A primeira obra que li de José Cardoso Pires, e aquela que ainda hoje mais estimo, foi a Balada da Praia dos Cães (Dissertação sobre um crime) – um título que já conhecia de há muito, de momento incerto no tempo, por ter visto na televisão o anúncio de que ia passar o filme - algures na segunda metade do anos oitenta, RTP2, quando a transmissão por cabo e a Internet não passavam de sonhos futuristas, apenas ao alcance dos visionários da Ficção Científica. O título, nessa altura, juntamente com algumas imagens da dita adaptação, ficou-me gravado na memória. Não sabia quem era José Cardoso Pires, mas aquele título! – aquele título era (é!) um dos mais belos que já ouvira atribuídos a um filme/livro. Balada da Praia dos Cães, que mistérios ocultos encerraria tão melódica e inspirada escolha? O enredo, a julgar pelas imagens, teria qualquer coisa a ver com um crime passional, e à cabeça do elenco Raúl Solnado, num papel “sério”, a interpretar o inspector da “Judite” que o investiga (no livro, sobre a personagem: “… Elias Santana, chefe de brigada. Indivíduo de fraca compleição física, palidez acentuada, 1 metro e 73 de altura; olhos salientes (exoftálmicos) denotando um avançado estado de miopia, cor de pele e outros sinais reveladores de perturbações digestivas, provavelmente gastrite crónica.”). Acabei por perder o filme dessa vez.

Muito anos depois li o romance – e aí fiquei rendido ao génio de Cardoso Pires, àquilo que pode ser descrito como a sua criatividade literária, à sedução estilística que emana da sua prosa, à imagem realista, desenganada e decadente que apresenta sobre a moral e os costumes sociais – tão enraizados na nossa cultura, tão portugueses. Era de uma investigação policial que se tratava de facto, mas tal investigação, servindo enfim de fio condutor à narrativa, era o que menos interessava na leitura. Pano de fundo: o retrato de uma nação vergada pela ditadura e pela opressão criminosa do regime – e dentro dela, através das recriações “sonhadas” pela mente do Elias, o “Covas”, a minúcia do comportamento humano revelando-se aos poucos, como sucede com o negativo de uma fotografia, até surgir a imagem humana em todo o seu esplendor, finalmente nítida e colorida. Recriar – no sentido não só de perceber como ocorreu (o crime), mas no sentido de revelar quem são – o que são - as pessoas envolvidas. Revelem-se as pessoas e mais os seus comportamentos que os factos e motivos surgem naturalmente, por dedução. Em frente a “Covas”, uma mulher, Mena, o apêndice de onde vai partir um dos vértices da investigação, mas também o corpo misterioso e infinitamente sedutor onde o inspector vai encontrar o estímulo perfeito para outro tipo de fantasias.

Balada da Praia dos Cães, publicado em 1982, é um romance ficcional baseado em factos reais ocorridos em 1960 - “…tragédia que tinha perturbado profundamente a opinião pública do país.” Escreve ainda José Cardoso Pires em nota final: “... entre o facto e a ficção há aproximações e distanciamentos a cada passo, e tudo se pretende num paralelismo autónomo e numa confluência conflituosa, numa verdade e numa dúvida que não são pura coincidência.“ Estamos bastante longe da ficção-entretém inconsequente de Conan Doyle ou Agatha Christie, por exemplo, por mais aprazível que esta possa ser, não só pelo alcance político e social da obra de Cardoso Pires, esse mergulho profundo na história do nosso país, como pela desenvoltura estilística do autor, que o coloca num patamar artístico a que esses outros não chegam, nem que lhes pusessem um escadote à frente.

Transcrevo abaixo o portentoso início do romance – coisa única e inesquecível, que revela, entre outras, uma das marcas reconhecíveis do autor: as suaves transições narrativas no espaço e no tempo. Veja-se como a partir de um frio e “matemático” relatório de autópsia/ocorrência Cardoso Pires transpõe o enredo para os domínios da ficção, e como, a partir desse momento, organiza as palavras para recriar acontecimentos com um apurado sentido visual, um domínio absoluto da linguagem, e uma riqueza estilística invulgar  – terreno onde a arte se eleva acima do facto descrito. Com algum humor pelo meio.

«
CADÁVER DE UM DESCONHECIDO
encontrado na praia do mastro em 3-4-1960

1.    Indivíduo do sexo masculino, 1.72 m de altura, bom estado de nutrição, idade provável cinquenta anos ----

2.      não aparenta rigidez cadavérica; não tem livores ---

3.     na calote craniana, ao nível da sutura dta. occipito-parietal, há uma perfuração circular de 4 mm de diâmetro provocada por projéctil ---

4.      perfuração do temporal esq., na tábua interna ---

5.     ruptura da dura-mater ao nível dos orifícios descritos nos ossos ---

6.    a órbita esq. apresenta uma fractura esquirilosa com perda de substância óssea numa área circular de 4 mm de diâmetro, à qual se segue um trajecto que se dirige para o lado direito do paladar duro ---

7.       encéfalo em putrefação adiantada, com o aspecto de uma massa verde-cinzenta, fétida ---

8.       perfuração do 3º espaço intercostal com infiltração hemorrágica do músculo circunvizinho ---

9.       perfuração do saco pericárdico ---

10.   perfuração do esófago ---

11.   coração: 4 perfurações interessando sucessivamente a aurícula esq., apêndice auricular esq., artéria pulmonar e base do ventrículo, pesa 300g, em avançado estado de putrefacção ---

12.   perfuração da 7.ª vértebra dorsal num orifício de 4 mm de diâmetro que é início de um trajecto que se prolonga até ao canal raquidiano onde se encontra alojada uma bala de arma de fogo ---

13.   outro projéctil na região muscular do cotovelo esq. ---

14.   bala de arma de fogo alojada no estômago, com depósito de abundante massa sanguínea ---

15.   ausência de sinais de homossexualidade activa ou passiva

Ap. Exame “in situ”: Areal acidentado de pequenas dunas, numa das quais, a cerca de 100 m da estrada se viam a descoberto um cotovelo e um joelho cujos tecidos se apresentavam parcialmente destruídos ---

--- e cobertos de moscas. Removida a areia com os cuidados necessários,  encontrou-se o corpo de um indivíduo do sexo masculino deitado na posição de decúbito lateral esquerdo em adiantado estado de decomposição. Calçava sapatos trocados, isto é, o pé direito no esquerdo e o do esquerdo no direito, e meias de lã em bom uso. Cronómetro de pulso marca  Tissot MM parado nas 05.27.41 horas. Não foram encontrados documentos, haveres, ou quaisquer referências pessoais. Nas regiões a descoberto algumas peças de vestuário apresentavam-se rasgadas pelos cães ---


---------------------- um dos quais, cão de fora e jamais identificado, foi aquele que chamou a atenção dum pescador local e o levou à descoberta do cadáver. Este cão parece que tinha sobrancelhas amarelas, que é coisa de rafeiro lusitano. Provavelmente andava à divina pela costa e como tal deve ter pernoitado na zona dos banhistas que nesta época do ano se resume a algumas armações de ferro e pavilhões a hibernar. Pelo terreno encontravam-se restos de férias, farrapos de jornais soterrados no areal, um sapato naufragado, embalagens perdidas; a boia de socorros a náufragos sempre à vista, dia e noite; refugos de marés vivas; o conhecido cartaz PORTUGAL, Europe’s Best Kept Secret, FLY TAP crucificado num poste solitário. Foi neste verão fantasma que o cachorro em viagem se veio acolher.

Ao alvorecer seguiu jornada rumo ao norte, precisamente na direcção mais deserta, o que não se compreende tratando-se dum animal aos sobejos, a menos que algum fio de cheiro urgente o tivesse chamado de longe; e assim deve ter sido porque quando passou pelo pescador ia a trote direito e de focinho baixo a murmurar. Levava destino, isso se via. Logo adiante apressou o passo, entrou em corrida e desapareceu nas dunas.

Porém não tardou a aparecer, desta vez esgalgado no cume das areias a uivar para os fumos que vinham do oceano. Isto, bem entendido, intrigou o pescador que pelo sim pelo não se dirigiu às arribas, sem que o animal interrompesse um só instante o seu apelo ou o olhasse sequer. E o pescador subindo sempre foi-se chegando a ele e já muito próximo parou e viu:

Viu no fundo duma cova uma conspiração de cães à volta do cadáver dum homem; alguns saltaram para o lado assim que ele apareceu mas logo retomaram a presa; outros nem isso, estavam tão apostados na sua tarefa que se abocanhavam entre eles por cima do corpo do morto.

Há aqui uma certa ironia, diz o inspector Otero da Polícia Judiciária. Segundo consta, a vítima gostava desvairadamente de cães.»

14/02/14

Love Story x 14

Alfred Hitchcock será para a eternidade recordado no cinema como o "grão-mestre da ordem do suspense", um cineasta - o maior e mais engenhoso que a Grã-Bretanha viu nascer - a quem interessou primeiramente a exploração dos mecanismos da inquietação/angústia, da falsa culpa, da dúvida e da incerteza em contextos de crime, bem como a necessidade de encontrar desfechos para esses mistérios, algo que ocorria tanto dentro da tela, com as personagens, como fora dela, junto dos espectadores. O Amor, não sendo um campo de trabalho a que se dedique em exclusivo (o romance não existe para Hitchcock apenas enquanto "história de amor", nem mesmo em casos como Vertigo, que aborda a obsessão exacerbada em torno de um ideal amoroso), desempenha ainda assim um papel crucial e determinante na maioria os seus filmes, ganhando, a espaços, tanta ou mais importância quanto as temáticas que o tornaram famoso. Não será despropositado afirmar que nestes casos as relações amorosas entre as personagens funcionam como coluna vertebral onde assenta o enredo - tais sentimentos atiram as personagens para comportamentos que de outra forma não sucederiam, matéria-prima por excelência para a fabricação de situações limite. A importância atribuída por Hitchcock ao Amor não pode de resto passar despercebida nos seus filmes - pelo contrário, é gritantemente óbvia e provocante, mesmo nas situações em que é a "sugestão" e o contorno freudiano a ditar as regras - quer pela utilização dinâmica da câmara, sempre "à espreita" para ensaiar close-ups ou planos e piruetas a explicitar a manifestação de gestos afectivos, quer pela "fisicalidade" que irradia dos actores, às vezes bastante libidinosa, quer ainda pelo jogo de gato-rato que o realizador foi mantendo fora da tela, ao longo do tempo, com a censura - é célebre "o beijo" de quase três minutos entre Cary Grant e Ingrid Bergman, em Notorious - Difamação (1946), que foi marotamente separado em dezenas de beijos mais curtos, intercalado com diálogos, prolongando-se enquanto os dois passeiam pelo cenário, para contornar o tempo limite de três segundos por beijo, imposto pelo Motion Picture Production Code, na altura em vigor.

Este dia S. Valentim serve de pretexto para recordar, um pouco ao jeito de Cinema Paraíso, 14 marcos na carreira de um realizador de excepção, para quem a palavra "inocência" foi sempre uma falsidade a denunciar.

   
Rebecca - 1940 - Laurence Olivier & Joan Fontaine

Suspicion - Suspeita - 1941 - Joan Fontaine & Cary Grant

Spellbound - A Casa Encantada - 1945 - Gregory Peck & Ingrid Bergman

Notorious - Difamação - 1946 - Cary Grant & Ingrid Bergman

 Strangers on a Train - O Desconhecido do Norte Expresso - 1951 - Ruth Roman & Farley Granger

Dial M for Murder - Chamada para a Morte - 1954 - Robert Cummings & Grace Kelly

Rear Window - A Janela Indiscreta - 1954 - James Stewart & Grace Kelly

The Trouble With Harry - O Terceiro Tiro - 1955 - Shirley MacLaine & John Forsythe

To Catch a Thief - O Ladrão de Casaca - 1955 - Cary Grant & Grace Kelly

The Wrong Man - O Falso Culpado - 1956 Henry Fonda & Vera Miles

Vertigo - A Mulher que Viveu Duas Vezes - 1958 - Kim Novak & James Stewart

North by Northwest - Intriga Internacional - 1959 - Cary Grant & Eva Marie Saint

Psycho - Psico - 1960 - John Gavin & Janet Leigh

Marnie - 1964 - Sean Connery & Tippi Hedren