12/11/13

Alice Já Não Mora Aqui - Martin Scorsese - 1974


Na vasta filmografia de Martin Scorsese, vistas as coisas a esta distância, e considerando a sua natural atracção por situações de violência latente (que depois expõe de forma hiperbólica), é possível que um título como Alice Doesn't Live Here Anymore nos pareça estranho, encaixado cronologicamente entre os raivosos e brutais Mean Streets - Os Cavaleiros do Asfalto (1973) e Taxi Driver (1976). Nada ligaria um pequeno drama intimista e agridoce, apostado em mostrar o mundo através de uma perspectiva feminina, com uma dona de casa como personagem central, às temáticas caras ao realizador. Olhando mais de perto, percebemos o que interessou tanto a Scorsese a ponto de aceitar filmar um argumento que não procurou em primeiro lugar - antes lhe caiu ao colo, tendo sido proposto por Ellen Burstyn, a actriz que interpreta Alice, e depois de uma primeira consulta a Francis Ford Coppola (Coppola, tal como Scorsese, era na altura um movie-brat - um dos novos talentos emergentes na América como realizador).

Um dos pilares em que assenta a força do cinema de Scorsese - e para lá do virtuosismo técnico que todos lhe reconhecem - é (e sempre foi) a exploração de uma determinada vertente reprimida/obsessiva na personalidade dos seus personagens, nomeadamente quando estes se acham emocionalmente encurralados, são confrontados com distanciamentos em relação à norma social, ou com situações de sofrimento limite que o contexto envolvente propicia - casos de solidão, rejeição ou exclusão comunitária, por exemplo - momentos de inquietude que terminam invariavelmente em explosões de violência, que autor filma com inegável fascínio pela perversidade. Devemos tanto à inspiração de Robert de Niro quanto à imaginação de Scorsese algumas das mais trágicas e diabólicas figuras que surgiram no cinema na segunda metade do séc. XX, casos de Travis Bickle em Taxi Driver, Rupert Pupkin no negríssimo The King of Comedy, e a reprise de Max Cady em Cape Fear, só para citar alguns.



É evidente que não é bem neste lote que cabe a Alice de Ellen Burstyn, nem o filme tem por intenção mostrar uma descida ao inferno da paranóia psicológica, mas por outro lado a matéria-prima de que se alimenta é em tudo semelhante à das obras mencionadas - a da existência de um ser encarcerado, e o acompanhamento gradual do processo de libertação -, tem é outro contexto. Alice é alguém com uma força de personalidade e uma inteligência imensamente superiores àquilo que a situação social lhe permite manifestar - uma sonhadora remetida ao papel de dona de casa submissa, ignorada pelo marido, e com um filho menor que não sabe como cativar e que lhe dá cabo dos nervos minuto-sim minuto-não. É apenas uma questão de tempo, adivinhamos nós espectadores, até o extremo limite do suportável se achar encontrado e o vulcão resolver acordar - os sinais estão à vista. Só que o destino (ou a pena do argumentista) decide de outra forma: Alice perde o marido num acidente de viação e decide, a partir desse momento, recomeçar a vida do zero, arrumando os pertences, pegando no filho, e arriscando uma viagem inter-estados através da América, para retomar o velho sonho de infância de se tornar cantora. É esta viagem em busca de uma nova Alice que explica o título e a dualidade de significância que este encerra, indicando em simultâneo a viagem de carro propriamente dita (deixando a antiga casa para trás), e a alteração comportamental deliberada (ou intenção disso) que a vai tornar numa pessoa diferente.

Face às temáticas dominantes e ao tom soft em relação ao que é o habitual de Scorsese, compreende-se o que torna Alice Doesn't Live Here Anymore num dos filmes mais esquecidos e menos divulgados do autor, uma situação declaradamente injusta, visto que exibe argumentos suficientes para se tornar um objecto de estimação - apreciando-se o estilo de Scorsese,  vê-lo 40 anos volvidos torna-se num gratificante prazer cinéfilo - registem estas palavras! É natural que, de entre o conjunto de interpretações, a de Ellen Burstyn seja a mais fácil de elogiar (e merece-o - se o filme necessitasse que o carregassem às costas, ela, por si só, bastaria), mas não há que esquecer o acerto e a sobriedade do restante elenco, em particular de Alfred Lutter (o pequeno actor que na tela faz de filho de Alice). De notar ainda a curta mas saborosa presença de Jodie Foster, numa das primeiras incursões no cinema, dois anos antes de aparecer totalmente transfigurada em Taxi Driver, na comovente figura de prostituta-menina que é explorada por Sport (Harvey Keitel) nas ruas de Nova Iorque

Não percam pois o rasto de Alice. É possível que tenham uma grata surpresa.

10/11/13

Trigo limpo, farinha amparo...


Under the Dome - Stephen King - 2009

 
Under the Dome, um título que traduzido para português resultaria em algo semelhante a Debaixo da Redoma, é o último romance publicado por Stephen King, em 2009. Apontado como uma espécie de sucessor espiritual de The Stand (1978) – talvez o livro mais aclamado de entre a sua vasta obra – e publicitado como o seu thriller mais conseguido desde então, Under the Dome acaba por defraudar, no final, as expectativas optimistas criadas em seu redor. De uma outra perspectiva, o livro confirma – ou torna a evidenciar - uma certa inépcia de King em lidar com o enredo fantástico que acondiciona as suas histórias e em apresentá-lo como credível nos contextos em que é utilizado. Um problema que não é recente e que tem por resultado o arruinar, numa série de livros, de toda uma sensação de realidade ilusória em momentos cruciais de desenlace da acção. No caso de Under the Dome em particular, essa vertente fantástica tem a ver com o aparecimento repentino de uma redoma invisível e indestrutível a cobrir a povoação de Chester’s Mill, isolando a comunidade de todo o contacto físico com o exterior. O próprio autor pareceu estar ciente deste handicap e esforçou-se na medida do possível para evitar qualquer exposição do assunto “fantástico” até mesmo ao final do livro – quanto menos falasse dele, melhor. O leitor sabe que a redoma existe, obviamente, já que toda a narrativa do livro no que concerne a desenvolvimento da intriga é resultado das consequências do estranho acontecimento, mas fica sempre às escuras sobre o que causou a situação – e com essa dúvida surge uma outra relacionada com o género literário: será que é coisa do sobrenatural, ou será que é coisa dos domínios da FC (ou ainda, de uma junção das duas)?

São raros os trechos em que o assunto “origem do fenómeno” é abordado directamente, e inexistentes aqueles em que sobre ele é levantada uma ponta do véu, à excepção de duas ou três páginas explicativas quase a encerrar a narrativa. Esta ideia de ocultação da vertente fantástica - um artifício que me parece consciente e propositado - dá a King a oportunidade para iniciar e desenvolver a história recorrendo às ferramentas que melhor domina: as que moldam as personagens e as relacionam entre si dentro daquela comunidade fechada. Ao alterar uma concepção adquirida da realidade e ao aprisionar uma cidade inteira dentro de um espaço físico impenetrável, King apetrecha-se da matéria-prima natural para desenvolver uma série de enredos paralelos que se cruzam ao virar de cada esquina e que voltam a desenhar um panorama maniqueísta que é típico nas suas histórias: a eterna luta do bem contra o mal, com a consequente definição de lados para cada personagem. Quanto a isto, nada de novo ou particularmente relevante, apesar da batalha, desta vez, ser protagonizada completamente à margem da vertente “fantástica” do livro, já que é de uma luta pela posse política e institucional da povoação que se trata – são os políticos locais que tentam desesperadamente manter o controlo do poder instituído contra um militar entretanto empossado pela Casa Branca, que por acaso se encontrava na povoação quando o fenómeno ocorreu, e que tem instruções para os render. Há interesses de cada um dos lados que justificam este desenvolvimento narrativo, sendo que ambos vão tentar manipular a opinião da população local a seu favor. Em paralelo, um grupo civil organizado tenta descobrir a fonte de energia que está a alimentar a redoma.

Mesmo que a primeira metade do livro represente uma tentativa hábil, entusiasmante, e quase conseguida de regresso a um modelo que já não se via nele há décadas, o de ‘Salem’s Lot, de The Stand ou de It, por exemplo, tudo cai por terra daí em diante. Digo “quase conseguida” porque o nível de identificação emocional que criamos com as personagens, mesmo nos melhores momentos narrativos, não chega ao patamar daquilo que sentimos nessas obras. O personagem principal não arranca a empatia necessária para que nos interessemos pela resolução da sua situação. As saudades que deveríamos "sofrer" com a conclusão do romance aparecem antes como um alívio. Os objectivos terão sido demasiado ambiciosos neste livro, a fasquia colocada demasiado alta, já que a meio caminho o gás esgota-se e King depara-se com uma enorme dificuldade em terminar os múltiplos enredos que até aí criou. Exemplo representativo deste desnorte na ambição é a enorme lista de personagens que nos é apresentada antes do início da narrativa. Uma lista que se revela útil (porque a ela iremos recorrer durante a leitura da obra) mas que ao mesmo tempo demonstra um excesso e uma consequente dispersão de pontos de vista que evitam a familiarização necessária com as personagens mais relevante. Não me lembro de alguma vez ter tido necessidade de olhar para um lista destas num livro de King para me lembrar de quem eram as personagens, nem sequer nos sete volumes no extenso Dark Tower. Sem este acondicionamento emocional para sustentar as restantes debilidades, a coisa torna-se complicada de gerir. A partir de metade do livro os acontecimentos tornam-se erráticos, dispersos, e sobretudo supérfluos – no sentido em que páginas e páginas de narrações são desperdiçadas em acontecimentos que depois se revelam circulares, ou que terminam em becos sem saída, e que não necessitavam de tais desenvolvimentos para encontrarem a sua conclusão. O único interesse na manutenção da leitura fica a dever-se, então, à tal dúvida de que falei anteriormente e que persiste, mesmo ao de leve, no leitor: perceber o que originou a formação da redoma. Infelizmente, e para reforçar a ideia de que King iniciou a escrita do livro sem saber como pretendia terminá-lo, a fórmula arranjada para o concluir corresponde a um remate frouxo e sem convicção que só por muito acaso entra na baliza e que ganha contornos de solução Deus Ex-Machina.

Muito por alto, há três tempos narrativos distintos ao longo do livro:

Na primeira metade, cerca de 400-450 páginas, o ritmo é pautado por uma série de efeitos de causa e consequência lógicos, que frequentemente surpreendem o leitor, que dão genuína energia e ferocidade à intriga, e que o mantêm agarrado à leitura. Os suportes principais que alimentam este interesse são os efeitos da redoma sobre a vida da população (com a escassez de víveres e a desordem social a ameaçarem a paz do dia-a-dia), a construção psicológica das personagens (onde que King se movimenta como um peixe na água) e a encenação dos vários atritos que inevitavelmente surgem quando forças opostas se cruzam na mesma rua. Uma das sequências mais conseguidas do livro acontece praticamente ao fechar do pano desta primeira parte; foca a formação de uma insurreição popular - uma mole humana que colectivamente se torna um animal raivoso fora de controlo - à porta de um super-mercado de bairro, na altura em que as pessoas, pacatas até esse momento, se apercebem que os alimentos já não estão há venda e terão de ser racionados.

Durante a maior parte da segunda metade, e até cerca de 80 páginas do fim, o desnorte toma conta das ideias de King e temos direito a 400 páginas de palha rebuscada que só aguentamos porque queremos saber o segredo da redoma. O gás termina justamente porque não há mais desenvolvimento de personagens para fazer e todos os caminhos de intercalação já foram percorridos. A continuação de cada uma das situações torna-se arrastada e na maior parte dos casos perde o sentido.

Finalmente, as últimas 80 páginas começam com a tal solução Deus Ex-Machina, que resolve o destino das personagens quase de uma só penada, e que culmina com a revelação final que tanto se aguardava – um desenlace paupérrimo que tem tanto de desinteressante como de frustrante.

Se fosse possível esquematizar num modelo físico os meus níveis de interesse ao longo da leitura e a quantificação do respectivo gosto, diria que os valores acompanham a forma concêntrica e abaulada da redoma que cobre Chester’s Mill. Até metade do livro o valor vai crescendo até ao ponto de inflexão (que numa escala de zero a dez corresponderá a um nove) e depois começa a decrescer de forma simétrica até voltar bater no zero com a conclusão. É mais adequado optar por este tipo de avaliação final da obra em contrapartida a uma nota média classificativa que, dadas as característica erráticas e pouco homogéneas da narrativa, resultaria num valor sem representatividade. Em todo o caso, esse valor seria negativo.

Ponyo à Beira-Mar - Hayao Miyazaki - 2008




Gake no ue no Ponyo - Ponyo à Beira-Mar
, a última incursão de Hayao Miyazaki no cinema (é de 2008 – aguarda-se com expectativa um novo filme de animação já este ano, com o título Kaze Tachinu - The Wind Rises), adapta livremente o conto de Hans Christian Andersen, A Pequena Sereia, dotando-o do cunho pessoal facilmente identificável deste realizador, quer pela abordagem técnica ao desenho propriamente dito (tudo feito “à mão”, de forma tradicional, sem recurso a computadores), quer pelas temáticas que lhe são caras, e que têm pontuado a sua obra de forma regular – o apelo sentido à necessidade de conviver em harmonia com a natureza; a infância como globo ocular narrativo, “verdadeiro”, incorrupto, mas sobretudo incorruptível; a inocência, a justeza, a generosidade e a amizade incondicional como referências basilares da forma de partilhar a vida; e uma penetrante dose de subversão comportamental humana, utilizada ora de forma subtil, ora de de forma descarada e espalhafatosa, e que nos deixa constantemente desarmados face ao modo como a “realidade” é aceite pelas personagens. A envolver tudo, o realismo mágico e a fantasia pura.

Ponyo é uma pequena sereia de 5 anos (de aspecto muito diferente daquilo que será a “visão clássica ocidental” de tais seres) que um dia decide, à revelia do pai, conhecer o mundo da superfície. Fujimoto, uma espécie de clone do Capitão Nemo convertido por Miyazaki ao seu universo muito próprio, é um cientista-alquimista-feiticeiro carrancudo que vagueia solitário pelo fundo dos oceanos enquanto planeia a sua vingança contra a raça humana (e que consiste, de forma simplificada, em dotar os seres marinhos de uma força sobre-humana que os faz crescer e desenvolver geneticamente, através de uma poção mágica por si desenvolvida). Depois de uma série de peripécias, e uma vez “desembarcada” em terra, Ponyo é recolhida num balde de praia por Sôsuke, um rapaz da sua idade. A afinidade entre ambos é imediata, e Ponyo decide torna-se humana para poder estar sempre junto de Sôsuke, uma resolução que vai desencadear uma catástrofe à escala planetária (não, não me enganei a escrever).

Se em termos narrativos Ponyo é um filme sereno e deliberadamente simples de seguir (o mais simples de todos os de Miyazaki, embora contenha algumas camadas de entendimento menos óbvias), em termos visuais a energia que emana é transcendente e transbordante (de forma literal) – mais do que o normal nas suas obras. Há uma imensa generosidade e abundância nas formas, nos feitios, nas cores, nos movimentos (revoltos e incessantes), na magia com que a vida é projectado no ecrã – a habitual celebração da natureza é aqui uma explosão contagiante e imparável de alegria, e o mais interessante é que resulta por completo da materialização física do intelecto de Ponyo – da sua vontade inconsciente. Há um elo directo que liga a “catástrofe natural” (convém agora usar as aspas, pela tal questão da subversão comportamental, mesmo que em causa esteja um maremoto devastador e uma subida do nível das águas na ordem de umas dezenas de metros) ao estado de espírito de Ponyo, e ao seu desejo incontido de chegar junto de Sôsuke. Na melhor sequência do filme (provavelmente uma das melhores de todo o repertório de Miyazaki), a garota de cinco anos corre sobre as ondas de um vagalhão gigantesco de água, galgando tudo no seu caminho, ao som de um tema musical que evoca com espectacularidade “A Cavalgada das Valquírias”, de Wagner. E o que diz o capitão de um cargueiro depois deste “monstro” quase ter afundado o navio em que segue? “Uma menina sobre as ondas? Devia ter a idade do meu filho”….

Ponyo à Beira-Mar é um filme sobre a capacidade que a amizade e amor têm de eliminar fronteiras difíceis, e sobre o desejo de unir dois mundos que cada vez se vão distanciando mais, o da natureza e o do homem, um desejo que no filme se materializa personificando o primeiro e dotando o segundo de um espírito mais generoso e consciente. Nos dois permanece contudo o olhar inocente e doce de uma criança - o factor que faz este "sonho" tornar-se palpável, ainda que inatingível, porque todos passámos por ele no início das nossas vidas. É um filme que tem um pouco de quase todas as obras anteriores deste realizador – desde o saudoso Conan, o Rapaz do Futuro (são inúmeras as referências a esta série magnífica), ao mundo alternativo de A Viagem de Chihiro, passando pela emoção ternurenta de O Meu Vizinho Totoro.

The Misfits - Os Inadaptados - John Huston, 1961




Muito de vez em quando calha-nos a sorte de sermos agredidos por um filme assim, um objecto em tudo fascinante, avassalador à sua passagem, de uma intensidade que fere alma, e que nos deixa como que atropelados, de pernas para o ar, com os pensamentos em curto-circuito e cicatrizes para cuidar, a tentar perceber que raio nos atingiu.

Os Inadaptados é um desses filmes, surpreendente para quem já tenha por certo não se surpreender com nada, mesmo considerando a priori a excelência dos nomes envolvidos e aquilo que deles podia ser tomado como valor adquirido. O filme é uma jóia de rara pureza que não denuncia o equilíbrio precário que envolveu as filmagens, fustigadas por todo o tipo de factores externos intrusivos, problemas com drogas e álcool, e paragens forçadas pelo meio - um conjunto de situações que paradoxalmente parece ter sido aproveitado e capitalizado com algum cinismo a favor do resultado final, como de resto nos é sugerido pela intensidade com que a câmara se alimenta, de forma quase canibal, do material humano que tem à frente. De forma canibal porque, é sabido, o que se ia passando fora da tela com os actores (em crise existencial, no caso dos dois principais) e com o realizador (que aparecia fortemente alcoolizado no estúdio), transparecia, subtilmente ou não, para dentro do filme. Jogava-se com as cartas na mesa, num terreno em que a arte e a vida dispensavam as fronteiras delimitadores. Posto de outro modo, há um elenco de luxo e mais a sorte de terem sido feitas as escolhas certas para os papéis (sorte dentro e fora do filme), há um espaço desmesurado para interpretar e desenvolver a riqueza das personagens, e há um realizador ávido por captar toda e a mais pequena manifestação de emoções humanas geradas pelo choque de personalidades naquele contexto electrizante. Junte-se a isto o argumento escrito pelo dramaturgo Arthur Miller (em processo de separação, na vida real, com Marilyn Monroe), carregado até transbordar pelas mais fabulosas linhas de diálogo de que me lembro de ouvir num filme (a última vez que tive uma sensação aproximada foi no inimitável Jonnhy Guitar), e passamos o filme a olhar, extasiados, para a divindade da sua criação. 

Duas estrelas brilham mais alto neste firmamento: Clark Gable e Marilyn Monroe. Deste par surge uma química bigger than life que perfuma todo o filme. A centelha de vida que as suas personagens fazem arder no ecrã, ora explosiva, ora melancólica, não é deste mundo. Ninguém é assim na realidade. Ninguém fala daquela maneira. Ninguém se expõe de forma tão aberta à voracidade de um contexto envolvente que é desconhecido. Ninguém se larga de forma tão livre à mercê das emoções (não há qualquer vislumbre de uma atitude racional a partir do minuto 10 na narrativa). Ninguém confia de forma tão pura e fácil o seu amor a um estranho. E contudo, não há pessoas mais humanas do que aquelas. É como se nas duas horas de filme tivesse cabido a súmula do género humano no que respeita ao modo como este, perdido e confuso, olha para si próprio e, encontrando-se abandonado, se relaciona depois com os outros. O título, a esse respeito, foi exímio a acertar no alvo. Não é um filme de fácil visualização nem de saudável digestão. Chega a ser penoso e deprimente, pela dor, tristeza e decadência da condição humana que tão intensamente expõe. Quem esteja à espera de entretenimento, procure noutro lado - Here there be tygers...

Uma mulher de meia-idade fragilizada, a braços com um divórcio, acumulando o peso de uma vida em que nunca se sentiu verdadeiramente amada por ninguém, aceita o convite de dois estranhos (o mecânico que lhe arranjou o carro, e um cowboy amigo deste) para um passeio pelas planícies inóspitas do oeste - um passeio pelos cenários de uma terra que outrora gerou um mito e fundou uma nação. O mote para a viagem é um resignado mas esperançoso “Let's just live…”. Pelo caminho junta-se ao grupo mais um ser inadaptado, um rapaz que não tem onde cair morto e que pretende ganhar uns trocos participando num espectáculo de rodeo. O que se segue não pode ser descrito por palavras. A impetuosidade e a crueza do filme têm de ser experimentadas para bom entendimento. Marilyn, habitualmente actriz de personagens que reúnem aquele misto de inocência e fragilidade a uma vitalidade corporal e a uma sensualidade capaz de transtornar o mais sério dos homens, consegue aqui uma entrega que não se lhe adivinharia a partir das comédias que anteriormente protagonizou. Viria a ser o seu último filme. Tal como para Clark Gable, que morreria dez dias depois de as filmagens terem terminado. O destino estava à espreita, colocando-lhe, nos lábios do personagem, a seguinte linha: “Honey, we all got to go sometime, reason or no reason. Dyin's as natural as livin'. The man who's too afraid to die is too afraid to live”.



07/11/13

Estamos Vivos


«The fact remains that getting people right is not what living is all about anyway. It's getting them wrong that is living, getting them wrong and wrong and wrong and then, on careful reconsideration, getting them wrong again. That's how we know we're alive: we're wrong. Maybe the best thing would be to forget being right or wrong about people and just go along for the ride. But if you can do that - well, lucky you.»

«Mantém-se o facto de que o compreender as pessoas não tem nada a ver com a vida. O não as compreender é que é a vida, não compreender as pessoas, não as compreender, não as compreender, e depois, depois de muito repensar, voltar a não as compreender. É assim que sabemos que estamos vivos: não compreendemos. Talvez o melhor fosse não ligar ao facto de nos enganarmos ou não sobre as pessoas e deixar andar. Se conseguirem fazer isso - estão com sorte.»

in American Pastoral - Philip Roth - 1997

04/11/13

"A" de...

Apresentação
Necessariamente curta, para não maçar ninguém antes de tempo, e porque nem tudo importa ao leitor saber nem ao autor divulgar. O escrevedor deste blogue nasceu em 1975, reside em Lisboa, trabalha como técnico de informática numa PME do ramo logístico, não tem página no facebook e é averso a redes sociais. De entre as gratas memórias de infância de que ainda se recorda, constam várias deslocações ao Cinema Alvalade para assistir a filmes de desenhos animados. Foi nessa e noutras grandes salas da capital, por esta altura extintas, convertidas em centros comerciais, ou vendidas a igrejas de reputação duvidosa, que julga ter sido contagiado por um invulgar interesse por Cinema - uma doença do foro obsessivo que o acompanhou até aos dias de hoje e da qual não se pretende curar. Ao longo do tempo foi acumulando outros interesses artísticos, como a literatura ou a música - sim, o cinema veio antes de tudo o resto -, sempre na óptica do utilizador (é assim que se diz na informática). Mais recentemente comprou uma Reflex digital em segunda mão e começou a tentar a sorte na fotografia, desta feita na óptica do disparador. Não consta que tenha atingido mortalmente ninguém com um disparo acidental (ou mesmo intencional), e não conserva, de resto, cadastro criminal na polícia por atentados à moral pública ou actos de vandalismo fotográfico. Pretende com este blogue reunir e actualizar uma série de textos e pensamentos que foi escrevendo na Internet ao longo do tempo em vários espaços, para os juntar em casa própria e para evitar que desapareçam por intenção alheia. Pretende também ir deixando novas provas de que não abandonou de todo o consumo compulsivo de matéria cultural e artística - não só fonte infinita de distracções e emoções, mas, mais importante, sustentáculo essencial para a formação e definição de valores sociais. Acredita piamente nestas últimas palavras. Não tem por hábito escrever na terceira pessoa, mas decidiu tentar por uma vez. Não se sentiu mais importante por isso - e o facto é que ninguém lhe ligou nenhuma.

Autoria
Recordo-me de ter escrito em tempos idos (que se me afiguram agora bastante longínquos), em parceria com um amigo e mentor, um livro de informática sobre um poderoso Sistema de Gestão de Bases de Dados Relacionais. Recordo-me de que demorei cerca dois anos a ter a minha parcela pronta para publicação, e de que, pelo meio, o programa mudou a versão comercializada duas vezes - no início ia na 7 e no final já estava na 9. Recordo-me de me ter tentado disciplinar para conseguir estar todos os dias duas horas em frente ao editor de texto a avançar com a escrita, e de quase ter conseguido manter esse ritmo até ao fim. Recordo-me da infinita paciência do meu contacto na editora, e de ir recebendo em casa, capítulo a capítulo, as provas do texto em papel, rasuradas a vermelho, preenchidas em tudo o que era espaços brancos pela linguagem "gatafúnhica" dos implacáveis revisores gramaticais, fulanos a quem não guardo já muita animosidade. Fiquei satisfeito com aquilo que escrevi enquanto resultado acabado em formato de livro, sobretudo porque significou a passagem de conhecimento para terceiras pessoas num processo semelhante ao de ensinar. Vistas as coisas a esta distância, teria hoje alterado algumas sequências explicativas que considero menos felizes e retirado 90% dos adjectivos que contaminam o texto, mas de outro modo está tudo pacífico - foi uma experiência gratificante. Ainda trabalho diariamente com o Visual FoxPro - ferramenta por esta altura descontinuada pela Microsoft, mas que se mantém indispensável para a minha actividade profissional - e tornaria a aceitar escrever este livro, caso mo pedissem de novo para o fazer, apesar do sacrifício implícito em termos de tempo, esforço e dedicação.

Argonauta
A mítica colecção que desde a década de 50 preenche o imaginário dos fãs de FC portugueses, tendo originado certamente muitos novos entusiastas ao longo do seu percurso de publicação, tem neste momento uma presença de relevo na Internet, através de um blogue exclusivo que a homenageia e divulga. São apresentados dados técnicos, capas, contracapas, sinopses narrativas e alguns extras adicionais para cada um dos 553 "grandes romances de Ficção Científica" que a compõem no formato de livro-de-bolso. Organizado por João Vagos de forma dedicada e laboriosa a partir de edições em papel - estamos aqui a falar de um verdadeiro acto de amor: cerca de 1100 digitalizações, e mais da inserção manual, via teclado, de centenas de textos - este espaço apresenta  aquilo que de melhor se publicou ao longo de seis décadas em Portugal dentro de um género que nem sempre foi bem recebido no mundo literário - injustamente, diga-se, mas isso são outros quinhentos. Não sendo alguém que liga muito a géneros ou a delimitações temáticas - sigo com bastante mais interesse autores, por exemplo - a FC representou para mim desde tenra idade uma espécie refúgio espiritual ao qual regresso sempre com renovado prazer, quer pela infinita capacidade de imaginação de quem se dedica a escrever tão delirantes fantasias (delirantes, mas sustentadas, sem excepção, por uma lógica inabalável), quer pelo desafio que coloca às limitações sensoriais da nossa mente, formatadas que estão pelo hábito de um quotidiano restrito, rotineiro e rasteiro. Da Colecção Argonauta, em papel, não tenho praticamente livro nenhum, mas li em inglês umas quantas obras que nela se encontram publicadas, pelo que posso pelo menos partilhar de uma fatia estreita do entusiasmo de quem noutros tempos a seguiu. Recentemente, na primeira edição da Revista Bang! direccionada para o mercado brasileiro, Luís Filipe Silva dedicou um extenso artigo a esta colecção - podem ser lidos, revista e texto, aqui.

Adamastor
Fundado em Março de 2013 por Ricardo Lourenço, o Projecto Adamastor é uma iniciativa cultural de relevo que visa disponibilizar gratuitamente, em formato digital, obras literárias de língua portuguesa que já não estejam abrangidas por direitos de autor (estão em Domínio Público). É um projecto sem fins lucrativos, que depende exclusivamente do trabalho de voluntariado, e que se rege por padrões elevados de qualidade na conversão e adaptação dos textos escolhidos - cada obra é cuidadosamente comparada com o texto original, actualizada para a ortografia vigente (pré-Acordo Ortográfico), e revista de forma minimizar o número de erros e potenciais gralhas. A vertente do design, grafismo e formatação da letra e parágrafo não foi esquecida, bastando olhar para algumas capas destas edições para ficar com água na boca uma ideia do empenho colocado na sua "fabricação". À data em que escrevo este texto, encontram-se publicadas através do Adamastor 13 obras de autores consagrados de língua portuguesa. É uma iniciativa pioneira em Portugal (lá fora existe há mais tempo um projecto semelhante que dá pelo nome de Gutenberg, mas que é orientado segundo outro tipo de critérios editoriais), não tanto pela disponibilização de obras em formato digital, mas pelo cuidado com que trata os textos - não faltam na Net dezenas (centenas?) de locais de onde se podem descarregar e-books portugueses gratuitamente, mas serão, na sua grande maioria, conversões feitas às três pancadas, sem qualquer tipo de revisão, carregadas de erros, gralhas e de desarranjos e omissões no texto. O tipo de experiência que num ápice nos retira qualquer vontade de continuar a leitura. Por outro lado, algumas das obras publicadas pelo Adamastor - que, repito estão em Domínio Público - podem ser encontradas nas livrarias, também em formato digital, só que... a pagantes! Com o advento da literatura digital, e com os aparelhos de e-reading a ganharem terreno ao papel a cada dia que passa, o Projecto Adamastor tem o mérito de definir um patamar qualitativo com parâmetros de leitura consistentes, e de constituir uma alternativa credível à mediocridade anónima de ofertas que enche os motores de pesquisa. Se porventura quiserem de alguma forma colaborar com a iniciativa, podem pedir informações aqui.

Allan Stewart Konigsberg
Filósofo irrequieto e neurótico do humor contemporâneo - tempero que equilibra de forma hábil com o lado dramático mais dorido e sóbrio da existência -, Woody Allen leva uma carreira com seis décadas de duração onde cabem perto de 50 filmes, e uma regularidade produtiva quase sem paralelo no mundo da 7ª Arte. Cineasta da exploração obsessiva das relações sentimentais atribuladas, da eterna e inconsolável demanda pelo par romântico ideal, e detentor de um vincado estilo autoral que consegue reinventar-se de fita para fita sem se repetir, considero-o responsável por me ter feito chorar mais à conta das gargalhadas que me arrancou nos seus filmes do que por todas as vezes em que esfolei os joelhos a brincar no recreio quando era criança, e não foram poucas. O que me faz contudo venerá-lo de forma especial não é (apenas) isso. É o sentir-me em casa quando vejo um filme seu. Há um qualquer calor emocional, confortável e acolhedor, que emana dos espaços interiores - lares e mentes - onde se ensaiam as dúvidas, os desejos e as nostalgias das personagens, e onde amiúde se espelham os meus próprios. Não sendo um agregador de consensos de opinião, e muito menos um realizador para as massas, os filmes que dirigiu nunca respeitaram o "código de conduta" comercial imposto por Hollywood, e mesmo quando a academia lhe decidiu atribuir as tão mediáticas estatuetas douradas, algo que sucedeu até agora por quatro vezes, Allen deu-se ao luxo de não aparecer nas cerimónias, por não ligar nenhuma a prémios. A sua última obra, Blue Jasmine, que pode ainda ser vista nas salas portuguesas, é um regresso a uma forma que já não exibia desde Match Point, em 2005. Para não variar, conta com uma personagem feminina fortíssima, interpretada por uma Kate Blanchet em estado de graça, e muito bem secundada por um elenco escolhido a dedo - altamente recomendado, portanto. Woody Allen será tema de futuras conversas aqui no blogue, visto ser um dos realizadores que mais admiro.

Agatha Christie
Estou a ler: The Murder of Roger Ackroyd - O Assassinato de Roger Ackroyd, uma das mais famosas e reputadas obras do género policial de que aparentemente há memória, a julgar pelos elogios granjeados, e em que o detective de serviço é o sempre aprumado Hercule Poirot. Vou a meio do livro e, apesar de conhecer o desenlace final (a sua fama precede-o), tenho estado a prestar particular atenção à forma como a autora engendra a trama e dispõe os factos narrativos de modo a manter o leitor na mais completa escuridão face à identidade do criminoso, ao mesmo tempo que vai revelando a conta-gotas determinadas características que podem comprometer cada personagem enquanto potencial autor de um assassinato. O termo apropriado para descrever o que nos sucede enquanto leitores é "manipulação". Mas, tal como acontece em todas as boas histórias de detectives, é mesmo de sermos vítimas dessa manipulação que estamos à espera, condição que acolhemos com agrado, e a partir da qual avaliamos no fim, depois de revelado quem matou o infeliz do cadáver que mal chegou a entrar na história, o escritor - quanto mais honesta e inteligentemente formos manipulados (curiosa junção de palavras), tanto mais crédito lhe daremos enquanto criador ficcional de mistérios. Faz parte das regras do jogo. Li relativamente poucas obras desta autora, uns cinco ou seis volumes da colecção Vampiro Gigante, mas em todas encontrei razões de sobra para a ela regressar ("Oh, the grey cells.. the little grey cells...!").

Arte?
Não sei o que isso seja. E desconfio de quem afirma saber. Diz-se por aí que a arte imita a vida e que a vida também imita a arte. Serão, no fim de contas, termos sinónimos em determinados contextos. Talvez então que a arte nos faça sentir mais próximos daquilo que será o sentido da vida, supondo que há um. Ou então é uma distracção que disfarça muito bem o seu real propósito. O que é a arte? - que é como quem pergunta: Qual é o sentido da vida? Suspeito que a resposta não deve aparecer no diccionário...


Antagonismo Ortográfico
Este blogue não respeita o novo Acordo Ortográfico - por uma questão de postura perante o que ainda resta de decência na nossa sociedade, e enquanto a actual classe política não se resolver também, de caminho para o abismo, a privatizar e a capitalizar o direito à indignação.

Auto-interpretação-visual


Nota posterior: desde que publiquei esta espécie de auto-retrato, ou de interpretação própria sobre quem sou/como sou, há cerca de duas semanas atrás, que inúmeros conhecidos me têm abordado com variações sobre uma mesma questão: que raio se estaria a passar na minha cabeça para decidir publicar um retrato "assim", logo na página de apresentação do blogue. "Assim", "um absurdo!" "Assim" no sentido de "impensado", no sentido de "horrível", de "feio", de "triste", de "tão exposto", com uma expressão tão "pesada" e "sisuda", tão "incorrecto" enquanto avaliador do meu prórpio ser, pelo menos no entender destas pessoas, que possivelmente, e face a estas interrogações afirmativas, carregadas de incredulidade, estarão habituadas a "verem-me" de outra maneira, suponho.
 
Face a isto, a minha resposta tem sido também ela mais ou menos invariável: não é um retrato exterior, é um retrato interior — tal como diz o título, é uma auto-interpretação, e, face a esta abordagem, a "verdade" impunha-se. A verdade, em contraponto a uma selfie fabricada para mostrar o "belo", com a barba feita, uma expressão sorridente, e algumas "imperfeições" na pele removidas a Photoshop. Não é assim que toda a gente gosta de se mostrar? No seu "melhor"? Esta não é, então, uma abordagem "impensada". É fruto de um "plano" calculista, friamente arquitectado e executado (nem o fundo da imagem é obra do acaso): mostrar-me tal como me sinto por dentro em determinadas alturas. Um plano de encenação que visou o estranho paradoxo de mostrar uma realidade sem subterfúgios. Visou também firmar uma marca concreta no tempo, palpável, que revisitarei muitas vezes no futuro, através da memória, regressando a uma representação real sobre o que de facto que sou/sinto agora. A minha expressão não é, contudo, uma de tristeza, é apenas neutra, vazia — sem forçar qualquer músculo do rosto (que melhor forma haverá de tentar uma representação exacta da realidade-própria?), embora com o sobrolho algo vergado pela luz solar intensa que entrava pela porta que tinha à frente.

Não quero também fazer passar a ideia de que só há uma "verdade", ou que possa ser inferida a partir uma perspectiva tão estreita e despida de detalhes como é a que se mostra aqui. Seria ridículo. A percepção tem infinitas realidades ao seu dispor, sempre mutando-se. A esse respeito, faço meu aquilo que David Lynch partilhou ao longo de todo o enigmático Mulholland Drive: «No hay banda! It is... an illusion.»