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22/12/13

Armas de incubação maciça

O prefácio escrito por Aldous Huxley, em 1946, para uma edição de Brave New World - Admirável Mundo Novo, começa assim:

«Chronic remorse, as all the moralists are agreed, is a most undesirable sentiment. If you have behaved badly, repent, make what amends you can and address yourself to the task of behaving better next time. On no account brood over your wrong-doing. Rolling in the muck is not the best way of getting clean.»

«O remorso crónico, e com isto todos os moralistas estão de acordo, é um sentimento bastante indesejável. Se considerais ter agido mal, arrependei-vos, corrigi os vossos erros na medida do possível e tentai conduzir-vos melhor da próxima vez. E não vos entregueis, sob nenhum pretexto, à meditação melancólica das vossas faltas. Rebolar no lodo não é, com certeza, a melhor maneira de alguém se lavar.»

Há uma nova edição da obra no mercado, pela chancela da Antígona, que actualiza extensamente a tradução feita por Mário-Henrique Leiria em 1955, para a Livros do Brasil. Se pretextos fossem necessários  para revisitar uma das obras de Ficção Científica mais premonitórias e influentes de sempre, publicada nesse ano longínquo de 1932, este é um dos que não envergonham o interlocutor.

18/12/13

Ensaio Sobre a Cegueira - José Saramago - 1995


Cegueira também é isto, viver num mundo onde se tenha acabado a esperança. 

Ensaio Sobre a Cegueira foi o último livro publicado por José Saramago antes de lhe ter sido atribuído o Prémio Nobel da Literatura, em 1998, e apesar de não constituir uma das peças basilares para a definição do seu estatuto enquanto autor/escritor/pensador mundialmente reconhecido (algo que por esta altura já não tinha contestação), não deixa de ser um marco incontornável na sua obra, abordando um conjunto de temáticas inseridas na sua visão simultaneamante crítica e humanista das normas que regem a vida em sociedade. Servindo-se da voz literária inconfundível que Saramago cunhou em Levantado do Chão (1980), e que celebrizou os seus romances desde então, Ensaio Sobre a Cegueira é mais uma imponente "reflexão que obriga a reflectir", uma meditação inquietante sobre o "estado das coisas", com poder de fogo suficiente para nos fazer questionar a ordem e a prioridade das escolhas na sociedade em que vivemos, sobretudo do ponto de vista dos valores morais que julgamos partilhar - aqueles que supostamente nos separariam dos animais irracionais.

E se todas as pessoas cegassem de um momento para o outro?

Se de um ponto de vista narrativo mais imediato pareça evidente o apelo sedutor de um enredo que coloca a nu a fragilidade estrutural da teia comunitária e acompanha a derrocada social tornando toda a gente cega, focando os infortúnios quotidianos de perto, ao nível do indivíduo, e não poupando nas descrições sórdidas e bastante perturbantes dos eventos que provavelmente sucederiam nessas circunstâncias, a cegueira a que a alude o título do livro - e sobre a qual é erguido este "ensaio" - não é de ordem física, mas pertence antes ao domínio espiritual e moral. É a denúncia desta cegueira social que interessa a Saramago explorar, e se noutras obras suas (em todas?) essa preocupação já era um factor presente, determinante até, aqui ganha contornos ainda mais explícitos - a(s) palavra(s) assim o estabelecem. 

Partindo de um mecanismo de impulsão narrativo comum na sua escrita, um "what if…" que subverte determinado pormenor da realidade para depois explorar, numa sucessão de encadeamentos causa-efeito, como decorreria o dia-a-dia das personagens face à mudança sugerida, Saramago encena, usando como cenário de fundo a sociedade contemporânea e a vida numa grande metrópole, aquilo que pode ser descrito como uma espécie de abordagem alternativa à Alegoria da Caverna, de Platão, com a deliciosa particularidade de inverter o modo como se alcança o conhecimento. Mantêm-se a premissa fundamental (o caminho em direção à verdade) e a questão das perspectivas que se actualizam (e de onde parte a absorção da realidade), "Era cego e agora consigo ver", mas parte-se o princípio físico inverso para justificar o princípio moral, "Foi necessário cegar para conseguir ver". E aquilo que as personagens sem nome conseguem ver nitidamente neste livro, agora que estão cegas, é a importância de valores que há muito relegaram para segundo plano: o respeito, a confiança e o direito à igualdade entre todo os que nascem humanos. Saramago regressaria mais tarde à alegoria de Platão no livro A Caverna (2000), mas trata-se de um romance menor, sem o alcance nem o apelo abrangentes de Ensaio Sobre a Cegueira.
 
Aquilo que poderia facilmente escorregar para o desastre literário nas mãos de um autor menos dotado, ganha no discurso rigoroso e sapiente de Saramago, com os habituais espaços extra-narrativos dedicados à análise incisiva e por vezes irónica dos "porquês das coisas", a relevância de uma epifania (destituída da sua vertente religiosa), tratada a espaços com a violência (controlada) de um terramoto, e a outros com a sensibilidade de quem entende a importância e a necessidade do afecto humano. Será porventura um dos romances de mais fácil acesso a quem pretenda iniciar-se na literatura de Saramago, mesmo não abdicando o livro da prosa "estranha" que foge à estruturação sintáctica do português tal como nos ensinaram na escola. Um factor diferenciativo perante o qual apenas nos devemos prostrar- é que, depois de se entranhar, dificilmente o quereremos esquecer. Ponto de partida, portanto, para outras obras de relevo que se afiguream mais densas no corpo de trabalho de Saramago (Memorial do Convento, O Ano da Morte de Ricardo ReisO Evangelho Segundo Jesus Cristo e História do Cerco de Lisboa por exemplo), mas que têm muito mais para oferecer do que a leitura isolada de Ensaio Sobre a Cegueira.

Se não formos capazes de viver inteiramente como pessoas, ao menos, façamos tudo para não viver inteiramente como animais.


13/12/13

Lord of the Flies - O Deus das Moscas - William Golding - 1954


Um avião despenha-se numa pequena ilha deserta, deixando como únicos sobreviventes um grupo de crianças de idades compreendidas entre os 6 e os 12 anos. Algo desorientadas de início, rapidamente tomam consciência de que estão entregues a si mesmas, sem adultos por perto para lhes indicarem o que devem fazer ou como se devem comportar - mas também para lhes assegurar o sustentáculo necessário à vida tal como estavam habituadas até aí, comida, um lar, e a afeição natural do ambiente familiar. Alguns dos mais velhos começam, logo nesta fase, a anhar um protagonismo que lhes é natural, tentando orientar as acções dos restantes sobreviventes.

Numa primeira reunião de assembleia, é escolhido um líder e são estabelecidos procedimentos para regular a vida na nova sociedade: uma fogueira será levantada e alimentada continuamente, de maneira a servir de aviso a possíveis navios que passem perto do local; uma série de abrigos será construída para servir ao descanso nocturno, colocando-os longe da escuridão ameaçadora da noite; e será escolhido um grupo de caçadores para trazerem carne para as refeições, em alternativa aos frutos que vão apanhando do chão e que não chegam para os manter bem nutridos. Envolvidos pelo clima paradisíaco da ilha, com longas praias rodeadas de uma selva luxuriante e livres para brincarem ao que bem lhes apetece, a crianças vivem momentos de intensa euforia.

A ordem e a intenção vão, no entanto, desvanecer-se aos poucos, à medida que o laxismo, a ausência de uma autoridade soberana comummente aceite, o aparecimento de um estranho monstro que os coloca nos limites da histeria, e a necessidade imperiosa de sobrevivência, vão arrastando o grupo para um estado semi-selvagem, em que a face mais negra dos seus caracteres emerge para dominar.

Escrito em 1954 por William Golding (Nobel da literatura em 1983), O Deus das Moscas, para além de uma poderosa e inquietante abordagem à questão da necessidade de regras sociais, pode ser entendido como uma aterradora parábola sobre o fascínio que o mal exerce sobre o ser humano.

O livro está orientado como uma descida progressiva ao inferno da alma humana, e torna-se particularmente incisivo na medida em que apresenta às crianças um cenário natural dotado de todas as condições para lhes proporcionar felicidade (há quem aponte um sentido metafórico relativamente ao Jardim do Éden). Se de início a nossa atitude perante os acontecimentos é a mais completa passividade, em muito pouco tempo sentimos o horror e a vontade de entrar história adentro para "corrigir" a ordem das coisas. É que às páginas tantas, já não vemos apenas o simples esquecimento, o simples desprender, em relação ao sentido de humanidade presente na memória do grupo. Vemos uma renúncia declarada e consciente, o abraçar da escuridão.

Um clássico indispensável, para ler e colocar na prateleira ao lado de 1984.

06/12/13

O retorno do "Supremo Medo"

«Pigarreou um pouco para limpar a voz e começou a ler, senhor director-geral da televisão nacional, estimado senhor, para os efeitos que as pessoas interessadas tiverem por convenientes venho informar que a partir da meia-noite de hoje se voltará a morrer tal como sucedia, sem protestos notórios, desde o princípio dos tempos e até ao dia trinta e um de dezembro do ano passado, devo explicar que a intenção que me levou a interromper a minha actividade, a parar de matar, a embainhar a emblemática gadanha que imaginativos pintores e gravadores doutro tempo me puseram na mão, foi oferecer a esses seres humanos que tanto me detestam uma pequena amostra do que para eles seria viver sempre, isto é, eternamente, embora, aqui entre nós dois, senhor director-geral da televisão nacional, eu tenha de confessar a minha total ignorância sobre se as duas palavras, sempre e eternamente, são tão sinónimas quanto em geral se crê, ora bem, passado este período de alguns meses a que poderíamos chamar de prova de resistência ou de tempo gratuito e tendo em conta os lamentáveis resultados da experiencia, tanto de um ponto de vista moral, isto é, filosófico, como de um ponto de vista pragmático, isto é, social, considerei que o melhor para as famílias e para a sociedade no seu conjunto, quer no sentido vertical, quer no sentido horizontal, seria vir a publico reconhecer o equívoco de que sou responsável e anunciar o imediato regresso à normalidade, o que significará que todas aquelas pessoas que já deveriam estar mortas, mas que, com saúde ou sem ela, permanecem neste mundo, se lhes apagará a candeia da vida quando se extinguir no ar a última badalada da meia-noite, note-se que a referência à badalada é meramente simbólica, não seja que a alguém lhe passe pela cabeça a ideia estúpida de encravar os relógios dos campanários ou de retirar o badalo aos sinos pensando que dessa maneira deteria o tempo e contrariaria o que é minha decisão irrevogável, esta de devolver o supremo medo ao coração dos homens, portanto resignem-se e morram sem discutir porque de nada lhes adiantaria, porém, um ponto há em que sinto ser minha obrigação dar a mão à palmatória, o qual tem que ver como injusto e cruel procedimento que vinha seguindo, que era tirar a vida às pessoas à falsa-fé, sem aviso prévio, sem dizer água-vai, tenho de reconhecer que se tratava de uma indecente brutalidade, quantas vezes não dei nem sequer tempo a que fizessem testamento, é certo que na maior parte dos casos lhes mandava uma doença para abrir caminho, mas as doenças têm algo de curioso, os seres humanos sempre esperam safar-se delas, de modo que só quando já é tarde de mais se vem a saber que aquela iria ser a última, enfim, a partir de agora toda a gente passará a ser prevenida por igual e terá um prazo de uma semana para pôr em ordem o que ainda lhe resta de vida, fazer testamento e dizer adeus à família, pedindo perdão pelo mal feito ou fazendo as pazes com o primo com quem desde há vinte anos estava de relações cortadas, disto isto, senhor director-geral da televisão nacional, só me resta pedir-lhe que faça chegar hoje mesmo a todos os lares do país esta minha mensagem autógrafa, que assino com o nome com que geralmente se me conhece, morte.»

in As Intermitências da Morte - José Saramago - 2005

02/12/13

The Spy Who Came in from the Cold - O Espião que Saiu do Frio - Jonh le Carré - 1963

Com a curiosidade natural de quem entra pela primeira vez num autor, comecei um livro que marchou todo de seguida no mesmo dia, de uma ponta à outra, com pequenas pausas pelo meio (quantos livros terei devorado desta forma? não muitos...)

Aquilo que me impressionou mais no final da leitura foi o clima miserabilista e solitário da guerra-fria vivido pelos agentes no final da escada hierárquica institucional -  cheira a verdadeiro, a real. É assim que imaginamos que seja (ou tenha sido) a vida, o dia-a-dia, de um espião colocado em território estrangeiro. Muito se escreveu sobre o contraste evidente entre a fria e cínica verdade das histórias de le Carré e os prazeres boémios dos contos de James Bond. Em le Carré, julgando por este livro, os leitores encontram uma identificação que lhes aponta directamente para uma realidade sem maquilhagem, intensificada pelo facto de sabermos que o autor fez parte dos serviços secretos britânicos durante uma boa parte da sua vida, e que tal experiência transpareceu para a ficção narrativa que forma a espinha dorsal da sua obra

Em The Spy Who Came in from the Cold (um título ambíguo, que encerra duas realidades interpretativas diferentes, como os leitores descobrirão, desencantados, no final da leitura), os eventos decorrem primeiro em Berlim, logo após a construção do muro, depois em Inglaterra e, finalmente, em parte incerta da República Democrática Alemã, no lado comunista controlado pelo Kremlin, numa fase de intenso a acalorado jogo de bastidores entre os Estados Unidos e a União Soviética, com a Inglaterra e a França a seguirem de perto a evolução dos acontecimentos.

A personagem principal é Alec Leamas, um agente britânico caído em desgraça - ridicularizado pelo seu opositor soviético em Berlim - a quem é proposta uma segunda oportunidade: regressar àquela cidade numa missão "à margem da lei", para eliminar o seu antagonista - uma personalidade obscura que metodicamente encontrou e assassinou, um a um, todos os agentes recrutados por Leamas no terreno. Impulsionado pelo ódio e pelo desejo de vingança, e suportado por uma elaborada e morosa operação secreta de de-construção da sua personalidade, Leamas colocar-se-á na pele de agente desertor, de forma a cair nas boas graças do adversário.

A escrita de le Carré, apresar de quase estritamente funcional, é, neste livro, fluída e agradável de seguir, apesar da narrativa em si representar um constante amargo de boca. Serve fielmente o propósito de "contar um conto", e de possibilitar o suporte para a denúncia das condições psicológicas limite a que se viam submetidos os agentes secretos no terreno.

Há uma questão moral importante que é levantada explicitamente ao longo de toda narrativa e que vai servindo de muleta para justificar tanto as acções de comando vindas de cima, como o próprio sentido para a vida destes agentes: a morte e o sacrifício de alguns inocentes será sempre uma escolha necessária perante a salvaguarda da liberdade de toda uma população. le Carré lida soberanamente com a este dilema - no final, o que nos sobra é uma raiva interior contra um princípio que sabemos ser verdadeiro, mas que nos deixa quase com o cheiro a sangue nas mãos, pelas acções do protagonista. No fim da cadeia, é ele que tem de lidar com o contacto directo com "os inocentes", com resultados psicologicamente difíceis de aceitar a partir do momento eu que há um envolvimento pessoal, por mais pequeno e controlado que seja. Leamas é no fundo mais um inocente perdido numa roda trucidante de eventos e decisões que não consegue controlar.

Como ponto menos conseguido, tenho a apontar uma certa previsibilidade na intriga. A meio do livro já desconfiamos de parte da sua conclusão. le Carré deixa pistas suficientes para que o leitor se possa ir apercebendo daquilo que verdadeiramente se está a passar. O problema é que se o leitor percebe, então as pessoas que estariam a viver aquelas situações na intriga com muito mais certezas se aperceberiam...  uma pequena questão de plausibilidade que não retira de resto qualquer prazer nesta leitura. Que o diga o tempo que levei a concluí-la.

uma adaptação cinematográfica que também recomendo sem reservas, para consumir antes ou depois do livro (é como entenderem, sendo que a primeira das alternativas será aquela que revelará os "segredos"), uma obra dirigida por Martin Ritt em 1965, com Richard Burton a interpertar Leamas, num dos grandes papéis da sua carreira.

28/11/13

O corpo de Alexandra

Para além das nuvens. Sobre a capacidade que certos autores têm em nos fazer acreditar na palavra enquanto artifício impulsionador do voo. Por um dos nossos melhores.


«A mulher deitada:
Na parede estava espalmada a gravura dum homem-pássaro, de vez em quando ouvia-se o cântico de uma criança muito longínquo. Esta criatura (o homem-pássaro) vinha dos álbuns de Max Ernst e tinha máscara de falcão, bico e olhos de falcão; suspendia uma madona nua pelos cabelos. Tudo muito nítido no desenho. Violentamente nítido, até.
De resto, na manhã de luz onde repousava a mulher deitada, cada traço, cada cor, tinha exactidão e espessura, os próprios lençóis amontoados ao fundo da cama eram relevos de sono num branco carnal. Também o espelho alto, espalmado no lado de dentro da porta, reflectia a exactidão, não a cegueira da luz, e isso porque, cobrindo a entrada a toda a altura do quarto, se apresentava como uma testemunha serena que tudo sabe e tudo viu.
O espelho e a cama. A cama que era rasa e imensa avançava pela manhã de sol entre pontas de cigarro e papéis a boiarem no chão, e a mulher que estava nela (à sombra do homem-pássaro) ia em sono sereno. Por cima e à volta esvoaçavam farrapos de vozes que vinham da rua: deviam ser, eram, as crianças dos vizinhos a brincar no relvado que separava os blocos de apartamentos. Eram, com certeza. Cantavam de roda com uma luz dourada de abelhas ao sol; num Outono assim e num jardim de crianças vê-se sempre uma velha sentada num banco, de boca aberta para o céu. Certo e fatal. Uma velha voltada para o sol e com uma dentadura postiça na palma da mão.
Bem, a cama. A gravura da madona desnuda, o espelho, os cigarros, tudo isso. Havia também a mão, a mão esquecida sobre um livro aberto em inglês, The Diary of Anais Nin, impressionava pela secura. Surpreendia que uns dedos assim gastos, fumados e ardidos de insónia, pertencessem a um corpo ainda jovem como aquele. E consciente, tinha todo o traçado de um corpo consciente. Experimentado. Dono do seu destino, ou parecendo. Um pescoço em linhas afirmativas, seios precisos e terminados em botão de cobre (estavam eriçadas essas pontas naquele momento: algum sonho?), coxas densas. Talvez longas demais, as coxas, e demasiado eloquentes, se assim se pode dizer. Ou talvez não, porque, atentando bem, essa massa de músculos aqui na confluências das pernas ou os tornozelos um pouco espessos só tornavam mais pessoal o conjunto. Com efeito toda aquela natureza que estava à vista era nitidamente pessoal e una. Apresentava-se como uma extensão de claridade onde crepitava o púbis, delta de Vénus, asa nocturna ou como se queira chamar à labareda negra que se imobiliza num corpo assim.
Ronco dum avião a declinar sobre a cidade, a caminho do aeroporto.
A mulher adormecida repetia-se numa grande foto a cores que havia, ou houve, algures naquele quarto, e onde ela aparecia a amparar uma criança loura a cavalo a cavalo da proa de um barco. Ambos em pose de mãe e filho numa praia de coqueiros, a embarcação com uma carraça esculpida na proa (as terríveis máscaras dos demónios navegadores que habitam o rio São Francisco, salvo erro) e, firmando mais o olhar, lá estava, lá estaria, certa manha de pele, uma nódoa do feitio duma mariposa, impressa no ombro do garoto. Beto, era ele.
«Maninha, como é que o dói-dói nasceu?»
«Não é dói-dói, é um sinal. Veio assim quando o Beto saiu da barriga da mãe.»
Pela infância fora o pequeno não parava de interrogar ao espelho a nódoa que lhe selava a natureza. Temia que fosse crescendo com a idade, e alastrasse, e escurecesse, cobrindo-lhe o corpo até o transformar num preto, como lhe dissera uma miúda na praia. Um preto, que coisa. E sendo louro, ainda pior. Oh, oh, o preto louro. Oh, oh, o preto louro.
«Maninha.»
«Que é?»
«Maninha, a Maninha não tem sinais?»
«Tão bonitos como esse, não.»
«São mais grandes?»
«São diferentes. São uma picadela de sol, não têm puto de graça. Vá, tapa o ombro e por favor deixa-te de coçar.»
Ano a ano o garoto ia tomando corpo no espelho pregado na porta do quarto, com olhos naquela marca invencível.
«Maninha.»
«Que é?»
«Os teus sinais.»
«A Maninha não tem sinais, quando acaba o Verão desaparecem sempre.»
«Mostra.»
Então a mulher que agora dormia endireitou-se diante do espelho, e de rosto apontado para longe abriu o roupão de par a par. Nem nos seios, nem no ventre, nem a todo o comprimento das coxas e dos braços tinha um único ponto escuro, uma sarda ou memória de sarda. Deixou-se ficar assim, obediente, exposta à curiosidade do pequeno. Mas num movimento lento, sempre com os olhos no espelho, levou a mão à virilha; e na virilha, mesmo na orla do púbis, fez surgir um pequeno sinal que era como que uma gota nocturna, densa e minúscula e talvez orgulhosa.
Beto aproximou o olhar, atraído e ao mesmo tempo receoso, mas Maninha pegou-lhe num dedo e conduziu-o até ao sinal para lhe dar a conhecer a macieza e o contorno dessa revelação, tornando-a bem palpável, sem mistério. Sempre de cabeça levantada para o espelho, deixou-se estudar e sentir pelo garoto. Imóvel. Pacientemente como um animal que espera.
Quantos beijos, quantas bocas não teriam perscrutado e segredado aquele sinal. E com que engenhos, com que imaginações. Quantas vezes Roberto Waldir, o mais amado, com os seus dentes irradiantes, assinou a pele da mulher deitada, como parece que ninguém mais a soube assinar. E no entanto ela bem o prevenira: «Tenho um corpo ingrato, não te fies.» Disse-lho, deu-lhe o aviso, quanto a isso não pode haver qualquer dúvida. Deu-o certamente também a outros amantes porque nestes jogos de cama as pessoas repetem-se quase sempre. Esta Maninha. Esta Alexandra de livro adormecido à margem da sua nudez. Todo o corpo dela era ingrato, e se calhar ainda bem; ou ainda mal, Alexandra já nem sabia. A verdade é que era um território, um lume de pele, onde havia de ser bom depor confidências; e que embora propício ao registo absorvia todas as marcas felizes logo que ficava solitário.»

in Alexandra Alpha - José Cardoso Pires - 1987

21/11/13

Flowers for Algernon - Daniel Keyes - 1966



Charlie Gordon é um deficiente mental a quem um dia é dada a hipótese de se tornar inteligente, através de uma operação experimental ao cérebro. A operação foi testada anteriormente em ratos e os resultados são promissores; a equipa de cientistas responsável pela descoberta utiliza Algernon, um desses ratos, numa série de exercícios cronometrados de fuga de labirintos, lado a lado com Charlie, para perceberem até que ponto a experiência pode resultar num humano. De início Charlie é batido sistematicamente por Algernon, mas à medida que o tempo avança, também o seu QI vai aumentando. Charlie começa então a olhar para o mundo que sempre conheceu, e em que sempre se sentiu seguro, de uma perspectiva que tem tanto de fascinante como de assustadora. 
 
Tudo foi tratado de forma excepcional neste livro: desde a linguagem utilizada pelo personagem principal, Charlie, que narra a história a partir de relatórios escritos na primeira pessoa, em formato de diário, passando pelo desenvolvimento narrativo (a sucessão de factos cronológicos e a forma como são encadeados e desenvolvidos estão sempre um passo à frente das previsões do leitor), e terminando na absoluta segurança com que é gerida a ligação entre racionalidade e emotividade, nomeadamente quando a evolução natural de um destes vectores é adulterada e acelerada no tempo milhares de vezes e a outra não consegue acompanhar - porque necessita de experiência de vida, que não tem, para "aprender".

O livro começa com a seguinte entrada no diário:
«progris riport 1 martch 3
Dr Strauss says I shoud rite down what I think and remembir and evrey thing that happins to me from now on. I dont no why but he says its importint so they will see if they can use me. I hope they use me becaus Miss Kinnian says mabye they can make me smart. I want to be smart. My name is Charlie Gordon I werk in Dormers bakery where Mr Donner gives me 11 dollers a week and bred or cake if I want. I am 32 yeres old and next munth is my brithday. I tolld dr Strauss and perfesser Nemur I cant rite good but he says it dont matter he says I shud rite just like I talk and like I rite compushishens in Miss Kin-nians class at the beekmin collidge center for retarted adults where I go to lern 3 times a week on my time off. Dr. Strauss says to rite a lot evrything I think and evrything that happins to me but I cant think anymor because I have nothing to rite so I will close for today... yrs truly Charlie Gordon.» 

Um pouco mais para a frente, já depois da operação, temos isto:

«Apr 15
 Miss Kinnian says Im lerning fast. She read some of the Progress Reports and she looked at me kind of funny. She says Im a fine person and Ill show them all. I asked her why. She said never mind but I shouldnt feel bad if I find out everybody isnt nice like I think. She said for a person who god gave so little to you done more then a lot of people with brains they never even used. I said all my friends are smart people but there good. They like me and they never did anything that wasnt nice. Then she got something in her eye and she had to run out to the ladys room.
Apr 16
Today, I lerned, the comma, this is a comma (,) a period, with a tail, Miss Kinnian, says its importent, because, it makes writing, better, she said, somebody, coud lose, a lot of money, if a comma, isnt, in the, right place, I dont have, any money, and I dont see, how a comma, keeps you, from losing it.»

Não há almoços grátis, e é isso que Charlie vai descobrir quando a sua mentalidade emocional, própria de uma criança de 10 anos, é confrontada subitamente, numa questão de semanas, com os problemas do mundo dos adultos. A realidade passa a ser um pau de dois gumes - se por um lado a sua capacidade de raciocínio e aprendizagem é elevada bem acima dos padrões normais, a sua vida emocional rapidamente chega a um beco sem saída. Todas as pessoas que conhece e ama começam a olhá-lo com desconfiança, ao mesmo tempo que as recordações do passado (coisa que Charlie nunca teve até aí, por efeitos da sua incapacidade) começam a atormentá-lo e a alterar a sua percepção sobre aquilo que sempre tomou por adquirido. Privado do natural tempo de aprendizagem que acompanha o crescimento humano, e sem um tutor apropriado para lhe dar a segurança necessária, Charlie decide dedicar-se a estudar o próprio projecto científico que lhe aumentou a inteligência.

Mais do que uma simples narrativa de entretenimento, a obra é uma fábula moderna de Ficção Científica sobre a própria condição humana, com várias camadas de sub-texto capazes de desencadear a reflexão no leitor. É um prazer (por vezes difícil de digerir) acompanhar tanto a prosa como o facto narrativo. É um prazer ler sobre uma matéria delicada e chegar ao fim a saber que Daniel Keyes tratou do assunto sem deslizes, sem optar por caminhos fáceis, e sobretudo sem cair na pieguice - mesmo quando, perante a impotência total de Charlie Gordon, somos assaltados pelas mais básica emoções humanas.

O que é melhor, ser ignorante e feliz ou inteligente e miserável?
Haverá um equilíbrio certo entre a bondade e a inteligência? 
De que é que depende a felicidade humana?
E até que ponto podemos intervir para a determinar?
Valerá a pena tentar, sabendo que tudo tem um fim?


Estas são alguma das questões com que no final o leitor terá forçosamente de se debater. Com esperança, o caminho para encontrar as respostas torná-lo-á numa pessoa diferente - é tudo o que se pode esperar de um bom livro, que no final não sejamos a mesma pessoa do que antes de o iniciarmos.  

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Este artigo diz respeito ao romance publicado em 1966, que não tem edição portuguesa, e não ao conto original, publicado em 1959. Esse conto foi publicado por cá, numa colectânea da Colecção Argonauta, nº 100. A história, pelo que dizem, é a mesma, com mais ou com menos desenvolvimento narrativo à mistura, conforme a versão, sendo que o conto ganhou o prémio Hugo, e o romance ganhou o prémio Nebula - dois dos mais prestigiados galardões internacionais que premeiam obras de Ficção Fantástica.

14/11/13

Os Cus de Judas - António Lobo Antunes - 1979



- Felizmente que a tropa há-de torná-lo um homem.
Esta profecia vigorosa, transmitida ao longo da infância e da adolescência por dentaduras postiças de indiscutível autoridade, prolongava-se em ecos estridentes nas mesas de canasta, onde as fêmeas do clã forneciam à missa dos domingos um contrapeso pagão a dois centavos o ponto, quantia nominal que lhes servia de pretexto para expelirem, a propósito de um beste, ódios antigos pacientemente segredados.

Um bombardeamento ideológico intenso, quase como uma lavagem ao cérebro. Pega-se no livro (neste, no anterior...), algumas páginas volvidas e estamos mental e emocionalmente esgotados, enjoados e enojados com realismo cru da abordagem. O bombardeamento é implacável, constante, não deixa, não há espaços para descansar - pousar o livro não chega. Serve-se de palavras duras, agressivas, de frases excessivamente longas, sórdidas, carregadas de adjectivos e referências culturais dispersas, construídas de forma a nos empurrarem a atenção para o fundo de um labiríntico poço de funcionalismos metafóricos. Bem-vindos ao início do inferno da escrita de Lobo Antunes. Se ainda por lá não passaram, façam o favor.

Conhece Santa Margarida? Digo isto porque, às vezes, na messe dos oficiais decorada com o mau gosto impessoal da sala de espera de um dentista de Moscavide (flores de plástico, oleografias imprecisas cujos arabescos monótonos se confundem com o papel de parede, cadeiras hirtas semelhantes a quadrúpedes desirmanados pastando num acaso sem simetria as franjas gastas dos tapetes), a majores em reboliço abandonavam os copos de uísque, de cubos de gelo substituídos por dados de póquer, para, erectos como soldados de chumbo barrigudos, saudarem a entrada de uma senhora que qualquer coronel subitamente urbano comboiava, deixando atrás de si, perceptível na tremura dos galões, um rasto cochichado de cio de caserna, que se cristalizaria em esquemas explicativos no mármore venoso dos urinóis, destinado à alfabetização dos faxinas.

Um homem, o narrador, alguém que se confunde com o próprio autor do livro a ponto de acreditarmos que são a mesma pessoa, fala para uma mulher enquanto a tenta seduzir. O tema do monólogo é a guerra colonial e a sua participação como médico de campanha em Angola, 1971; as recordações, os efeitos devastadores que permanecem para a posteridade, para sempre, na memória de quem esteve no Ultramar, atirados para o livro numa dislexia anacrónica que não separa o passado do presente, como que a dizer: somos ainda aquilo que um dia fomos obrigados a ser. Os capítulos são as letras do alfabeto, e o fio condutor leva-nos por todos os recantos da recordação: eis aqui a vergonha na sua totalidade, contada em todas as letras, para que não haja dúvidas, para que nada fique esquecido. Para Lobo Antunes a experiência da guerra significa uma espécie renascimento: os homens que regressaram vivos voltaram a nascer pelo útero de uma puta chamada Pátria.

Porque camandro não se fala nisto? Começo a pensar que o milhão e quinhentos mil homens que passaram por África não existiram nunca e lhe estou contanto uma espécie de romance de mau gosto impossível de acreditar, uma história inventada com que a comovo a fim de conseguir mais depressa (um terço de paleio, um terço de álcool, um terço de ternura, sabe como é?) que você veja nascer comigo a manhã na claridade azul pálida que fura as persianas e sobe dos lençóis, revela a curva adormecida de uma nádega, um perfil de bruços no colchão, os nossos corpos confundidos num torpor sem mistério.

O personagem aparenta ser o mesmo de Memória de Elefante, a época abordada também, a perspectiva é que mudou de objecto focado: a família, a esposa e as filhas que eram o centro do mundo no primeiro livro, vêem-se substituída pelas explosões de minas e morteiros, pelo sangue escuro e vísceras dos soldados desafortunados, pelos cheiros da terra, do vómito, do esperma e da fruta de África, pela carne ferida, decepada e amputada, pelo sexo exposto ao abuso da violação, pelas prostitutas de cabarés rascas das cidades decrépitas de Angola, pela Pide e pelo Estado Novo, pelos crimes de guerra e pelas vítimas do medo, por uma vivência de absurdo completo em que nada parece fazer sentido e de onde não há como escapar - só pela morte ou loucura.

Não sucede o mesmo consigo? Nunca teve vontade de se vomitar a si própria?
(...)
Não, a sério, a felicidade, esse estado difuso resultante da impossível convergência de paralelas de uma digestão sem azia com o egoísmo satisfeito e sem remorsos, continua a parecer-me, a mim, que pertenço à dolorosa classe dos inquietos tristes, eternamente à espera de uma explosão ou de um milagre, qualquer coisa de tão abstracto e estranho como a inocência, a justiça, a honra, conceitos grandiloquentes, profundos, e afinal vazios que a família, a escola, a catequese e o Estado me haviam solenemente impingido para melhor me domarem, para extinguirem, se assim me posso exprimir, no ovo, os meus desejos e protestos de revolta.
(…)
Em Mangando e Marimbanguengo, vi a miséria e a maldade da guerra, a inutilidade da guerra nos olhos de pássaros feridos dos militares, no seu desencorajamento e no seu abandono, o alferes em calções espojado pela mesa, cães vadios a lamberem restos na parada, a bandeira pendente do seu mastro idêntica a um pénis sem força, vi homens de vinte anos sentados à sombra, em silêncio, como os velhos nos parques, e disse ao furriel enfermeiro, que desinfectava o joelho com tintura, É impossível que um dia destes não tenhamos para aqui uma merdósia qualquer, porque, sabe como é, quando homens de vintes anos se sentam assim à sombra, num tão completo desamparo, algo de inesperado, e estranho, e trágico acontece sempre, até que me vieram informar do rádio Um tipo deu um tiro em Mangando, e eu corri para o carro onde a escolta me aguardava a aprontar-se ainda, e seguimos aos saltos para o norte pela picada que a chuva destruíra.

Aos poucos e poucos, como se imagens de objectos de que nos aproximamos no meio de um nevoeiro espesso e pesado se tratassem, começamos a vislumbrar detalhes daquilo que não muito mais tarde, em futuros romances, viria a ser uma das marcas-referência no estilo de António Lobo Antunes: parágrafos intermináveis onde não há um ponto final senão ao fim de algumas páginas, e uma sucessão algo caótica de frases e palavras que se lêem como se de pensamentos e memórias nossos se tratassem. Por enquanto, e porque esta é apenas uma segunda obra, e na primeira ainda não havia destas coisas, tal abordagem estilística extremada é empregue muito ao de leve, dir-se-ia que experimentalmente, timidamente, as palavras ainda aparecem organizadas segundo uma sintaxe perceptível, e encontramos apenas alguns destes trechos escondidos no meio de tudo o resto (leia-se, o resto do romance), sendo que neste caso tudo o resto, mesmo assim, já se nos apresenta como estando nos limites das regras gramaticais da escrita de português, e que funcionam aqui quase como uma mordaça que não aguenta por muito mais tempo até ceder, sob pressão, ao rugido do autor.

Escute. Olhe para mim e escute, preciso tanto que me escute, me escute com a mesma atenção ansiosa com que nós ouvíamos os apelos do rádio da coluna debaixo de fogo, a voz do cabo de transmissões que chamava, que pedia, voz perdida de náufrago esquecendo-se da segurança do código, o capitão a subir à pressa para a Mercedes com meia dúzia de voluntários e a sair do arame a derrapar na areia ao encontro da emboscada, escute-me tal como eu me debrucei para o hálito do nosso primeiro morto na desesperada esperança de que respirasse ainda, o morto que embrulhei num cobertor e coloquei no meu quarto, era a seguir ao almoço e um torpor esquisito bambeava-me as pernas, fechei a porta e declarei Dorme bem a sesta, cá fora os soldados olhavam para mim sem dizer nada, Desta vez não há milagre meus chuchus, pensei eu, fitando-os, Está a dormir a sesta, expliquei-lhes, está a dormir a sesta e não quero que o acordem porque ele não quer acordar, e depois fui tratar dos feridos que se torciam nos panos de tenda, nunca os eucaliptos de Ninda se me afiguraram tão grandes como nessa tarde, grandes, negros, altos, verticais, assustadores, o enfermeiro que me ajudava repetia Caralho caralho caralho com pronúncia do Norte, viemos de todos os pontos do nosso país amordaçado para morrer em Ninda, do nosso triste país de terra e mar para morrer em Ninda, Caralho caralho caralho repetia eu com o enfermeiro com o meu sotaque educado de Lisboa, o capitão apeou-se na Mercedes num cansaço infinito, segurava a arma à laia de uma cana de pesca inútil, o povo da sanzala espreitava receoso lá de baixo, escute-me como eu escutava o rápido latir aflito do meu sangue nas têmporas, o meu sangue intacto nas têmporas, pelos buracos da varanda via o capitão a passear de um lado para o outro apertando o viático de um copo de uísque contra o peito, falando sozinho, cada um conversava sozinho porque ninguém conseguia conversar com ninguém, o meu sangue no copo do capitão, tomai e bebei ó União Nacional, o corpo do morto crescia no quarto até rebentar as paredes, alastrar pela areia, alcançar a mata em busca do eco do tiro que o tocou, o helicóptero transportou-o para Gago Coutinho como quem varre lixo vergonhoso para debaixo de um tapete, morre-se mais nas estradas de Portugal do que na guerra de África, baixas insignificantes e adeus até ao meu regresso, o furriel arrumou os instrumentos cirúrgicos na caixa cromada, os canivetes, as pinças, os porta-agulhas, as sondas, sentou-se ao meu lado nos degraus do posto de socorro, espécie de vivenda pequenina para férias dos reformados melancólicos, mordomos idosos, governantas virgens, os eucaliptos de Ninda não cessavam de aumentar, estamos os dois aqui sentados como eu e ele nesses tempo, Abril de 71, a dez mil quilómetros da minha cidade, da minha mulher grávida, dos meus irmãos de olhos azuis cujas cartas afectuosas se me enrolavam nas tripas em espirais de ternura, Foda-se, disse o furriel que limpava as botas com os dedos, Pois é, disse eu, e acho que até agora nunca tive um diálogo tão comprido com quem quer que fosse.

Adore-se ou deteste-se, e porque, tal como a guerra, é um livro feito de excessos e absurdos, quem o lê não o esquece tão depressa. Revelava-se e afirmava-se um Autor maior nesse ano de 1979.

10/11/13

Under the Dome - Stephen King - 2009

 
Under the Dome, um título que traduzido para português resultaria em algo semelhante a Debaixo da Redoma, é o último romance publicado por Stephen King, em 2009. Apontado como uma espécie de sucessor espiritual de The Stand (1978) – talvez o livro mais aclamado de entre a sua vasta obra – e publicitado como o seu thriller mais conseguido desde então, Under the Dome acaba por defraudar, no final, as expectativas optimistas criadas em seu redor. De uma outra perspectiva, o livro confirma – ou torna a evidenciar - uma certa inépcia de King em lidar com o enredo fantástico que acondiciona as suas histórias e em apresentá-lo como credível nos contextos em que é utilizado. Um problema que não é recente e que tem por resultado o arruinar, numa série de livros, de toda uma sensação de realidade ilusória em momentos cruciais de desenlace da acção. No caso de Under the Dome em particular, essa vertente fantástica tem a ver com o aparecimento repentino de uma redoma invisível e indestrutível a cobrir a povoação de Chester’s Mill, isolando a comunidade de todo o contacto físico com o exterior. O próprio autor pareceu estar ciente deste handicap e esforçou-se na medida do possível para evitar qualquer exposição do assunto “fantástico” até mesmo ao final do livro – quanto menos falasse dele, melhor. O leitor sabe que a redoma existe, obviamente, já que toda a narrativa do livro no que concerne a desenvolvimento da intriga é resultado das consequências do estranho acontecimento, mas fica sempre às escuras sobre o que causou a situação – e com essa dúvida surge uma outra relacionada com o género literário: será que é coisa do sobrenatural, ou será que é coisa dos domínios da FC (ou ainda, de uma junção das duas)?

São raros os trechos em que o assunto “origem do fenómeno” é abordado directamente, e inexistentes aqueles em que sobre ele é levantada uma ponta do véu, à excepção de duas ou três páginas explicativas quase a encerrar a narrativa. Esta ideia de ocultação da vertente fantástica - um artifício que me parece consciente e propositado - dá a King a oportunidade para iniciar e desenvolver a história recorrendo às ferramentas que melhor domina: as que moldam as personagens e as relacionam entre si dentro daquela comunidade fechada. Ao alterar uma concepção adquirida da realidade e ao aprisionar uma cidade inteira dentro de um espaço físico impenetrável, King apetrecha-se da matéria-prima natural para desenvolver uma série de enredos paralelos que se cruzam ao virar de cada esquina e que voltam a desenhar um panorama maniqueísta que é típico nas suas histórias: a eterna luta do bem contra o mal, com a consequente definição de lados para cada personagem. Quanto a isto, nada de novo ou particularmente relevante, apesar da batalha, desta vez, ser protagonizada completamente à margem da vertente “fantástica” do livro, já que é de uma luta pela posse política e institucional da povoação que se trata – são os políticos locais que tentam desesperadamente manter o controlo do poder instituído contra um militar entretanto empossado pela Casa Branca, que por acaso se encontrava na povoação quando o fenómeno ocorreu, e que tem instruções para os render. Há interesses de cada um dos lados que justificam este desenvolvimento narrativo, sendo que ambos vão tentar manipular a opinião da população local a seu favor. Em paralelo, um grupo civil organizado tenta descobrir a fonte de energia que está a alimentar a redoma.

Mesmo que a primeira metade do livro represente uma tentativa hábil, entusiasmante, e quase conseguida de regresso a um modelo que já não se via nele há décadas, o de ‘Salem’s Lot, de The Stand ou de It, por exemplo, tudo cai por terra daí em diante. Digo “quase conseguida” porque o nível de identificação emocional que criamos com as personagens, mesmo nos melhores momentos narrativos, não chega ao patamar daquilo que sentimos nessas obras. O personagem principal não arranca a empatia necessária para que nos interessemos pela resolução da sua situação. As saudades que deveríamos "sofrer" com a conclusão do romance aparecem antes como um alívio. Os objectivos terão sido demasiado ambiciosos neste livro, a fasquia colocada demasiado alta, já que a meio caminho o gás esgota-se e King depara-se com uma enorme dificuldade em terminar os múltiplos enredos que até aí criou. Exemplo representativo deste desnorte na ambição é a enorme lista de personagens que nos é apresentada antes do início da narrativa. Uma lista que se revela útil (porque a ela iremos recorrer durante a leitura da obra) mas que ao mesmo tempo demonstra um excesso e uma consequente dispersão de pontos de vista que evitam a familiarização necessária com as personagens mais relevante. Não me lembro de alguma vez ter tido necessidade de olhar para um lista destas num livro de King para me lembrar de quem eram as personagens, nem sequer nos sete volumes no extenso Dark Tower. Sem este acondicionamento emocional para sustentar as restantes debilidades, a coisa torna-se complicada de gerir. A partir de metade do livro os acontecimentos tornam-se erráticos, dispersos, e sobretudo supérfluos – no sentido em que páginas e páginas de narrações são desperdiçadas em acontecimentos que depois se revelam circulares, ou que terminam em becos sem saída, e que não necessitavam de tais desenvolvimentos para encontrarem a sua conclusão. O único interesse na manutenção da leitura fica a dever-se, então, à tal dúvida de que falei anteriormente e que persiste, mesmo ao de leve, no leitor: perceber o que originou a formação da redoma. Infelizmente, e para reforçar a ideia de que King iniciou a escrita do livro sem saber como pretendia terminá-lo, a fórmula arranjada para o concluir corresponde a um remate frouxo e sem convicção que só por muito acaso entra na baliza e que ganha contornos de solução Deus Ex-Machina.

Muito por alto, há três tempos narrativos distintos ao longo do livro:

Na primeira metade, cerca de 400-450 páginas, o ritmo é pautado por uma série de efeitos de causa e consequência lógicos, que frequentemente surpreendem o leitor, que dão genuína energia e ferocidade à intriga, e que o mantêm agarrado à leitura. Os suportes principais que alimentam este interesse são os efeitos da redoma sobre a vida da população (com a escassez de víveres e a desordem social a ameaçarem a paz do dia-a-dia), a construção psicológica das personagens (onde que King se movimenta como um peixe na água) e a encenação dos vários atritos que inevitavelmente surgem quando forças opostas se cruzam na mesma rua. Uma das sequências mais conseguidas do livro acontece praticamente ao fechar do pano desta primeira parte; foca a formação de uma insurreição popular - uma mole humana que colectivamente se torna um animal raivoso fora de controlo - à porta de um super-mercado de bairro, na altura em que as pessoas, pacatas até esse momento, se apercebem que os alimentos já não estão há venda e terão de ser racionados.

Durante a maior parte da segunda metade, e até cerca de 80 páginas do fim, o desnorte toma conta das ideias de King e temos direito a 400 páginas de palha rebuscada que só aguentamos porque queremos saber o segredo da redoma. O gás termina justamente porque não há mais desenvolvimento de personagens para fazer e todos os caminhos de intercalação já foram percorridos. A continuação de cada uma das situações torna-se arrastada e na maior parte dos casos perde o sentido.

Finalmente, as últimas 80 páginas começam com a tal solução Deus Ex-Machina, que resolve o destino das personagens quase de uma só penada, e que culmina com a revelação final que tanto se aguardava – um desenlace paupérrimo que tem tanto de desinteressante como de frustrante.

Se fosse possível esquematizar num modelo físico os meus níveis de interesse ao longo da leitura e a quantificação do respectivo gosto, diria que os valores acompanham a forma concêntrica e abaulada da redoma que cobre Chester’s Mill. Até metade do livro o valor vai crescendo até ao ponto de inflexão (que numa escala de zero a dez corresponderá a um nove) e depois começa a decrescer de forma simétrica até voltar bater no zero com a conclusão. É mais adequado optar por este tipo de avaliação final da obra em contrapartida a uma nota média classificativa que, dadas as característica erráticas e pouco homogéneas da narrativa, resultaria num valor sem representatividade. Em todo o caso, esse valor seria negativo.